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O que nos dizem as provas de aferição

provas de aferição

Saíram os resultados das provas de aferição e a sociedade ficou em choque com a ausência de competências básicas demonstrada pelas nossas crianças.

A propósito deste assunto que nos deve preocupar a todas, «raptámos» um texto publicado pela Ana Rita Dias no grupo de Facebook «Escolas alternativas e transformar a educação em Portugal», do qual é fundadora e administradora.

Tal como as «Mulheres à Obra», é um grupo movido por inquietações, reflexões, espírito crítico e, sobretudo, pelo desejo de contribuir para uma sociedade melhor.

Citando a descrição do grupo:

Este grupo acredita que os métodos de ensino tradicionais, e que ainda vigoram maioritariamente nas nossas escolas (públicas e privadas), não vão ao encontro das necessidades das crianças e do seu desenvolvimento integral. Assim, pretende contribuir para uma mudança de paradigma na educação, com dois objectivos gerais:

  • dar a conhecer as escolas alternativas ao ensino convencional e as comunidades de aprendizagem que já existem no nosso país. Escolas alternativas no sentido de tentarem promover práticas diferenciadas, que se afastem do modelo tradicional, já que não existe propriamente uma definição de escola alternativa;
  • unir esforços para se gerarem mudanças em TODAS as escolas, nomeadamente através de algumas iniciativas como a petição “Transformar a Educação em Portugal”, que visam promover práticas que tornem o espaço escolar mais respeitador dos alunos e dos profissionais de educação.

Subscrevemos esta postura, tal como subscrevemos a lúcida e esclarecedora análise que Ana Rita Dias efetuou sobre os resultados das provas de aferição. Com a sua permissão, reproduzimos aqui na íntegra o seu texto, para que se reflicta seriamente sobre um problema que não se limita à escola, nem à educação formal, mas que remete para a nossa sociedade como um todo. É portanto um problema que nos deve preocupar a nós, mulheres empreendedoras e cidadãs interessadas pelo que nos rodeia.

“Claro que as notícias sensacionalistas e cheias de profecias da desgraça sobre as provas de aferição já estão a brotar por todos os lados. Chega a ser aborrecido de tão previsível. O drama e o horror, descoberta da pólvora, é que 40% das crianças não sabe dar cambalhotas nem saltar à corda e aponta-se como solução melhorar o programa de educação física.

ERRADO! Podem mudar o programa mas, sem menosprezo pela disciplina, a verdadeira solução não está na educação física, uma ou duas vezes por semana.

A solução está em sair desta visão curta, das respostas cheias de remendos e de não se olhar para a infância de uma forma mais abrangente e profunda, procurando-se as reais causas. A solução está em deixar os miúdos explorar e brincar livremente, com o corpo, com os sentidos, com os desafios que a rua e a natureza lhes coloca, todos os dias. Está em não os confinar ao sofá, às salas de aula em que passam demasiadas horas sentados e aos recreios estéreis, lisos e almofadados. E isto não é incompetência das crianças, tal como as notícias parecem gostar de frisar de forma mais ou menos humilhante (ah e tal, que as crianças de hoje em dia…), mas sim dos adultos!

As crianças estão a viver uma infância à medida da vida dos adultos. À medida de não importunar, de não se mexerem demasiado e de não fazerem muito barulho, seja em casa, seja na escola, seja em todo o lado.
Há cada vez mais oferta de actividades para crianças mas na sua maioria direccionadas para coisas programadas e delimitadas pelos adultos.

Não basta melhorar a educação física. Não basta inscrever as crianças em actividades desportivas. É preciso levá-las lá para fora. É preciso que subam árvores, que desçam montes, que saltem muros. Não há nenhum ensino intencional de cambalhotas que substitua isto. E enquanto isto não for percebido, teremos cada vez mais crianças desconectadas do seu próprio corpo. Não precisamos de nenhuma prova de aferição para perceber isto”.

Ana Rita Dias

Psicóloga Clínica e do Aconselhamento


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