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Empreendedorismo – Mito ou Realidade

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O empreendedorismo é o slogan da atualidade, o remédio para todos os males, o caminho a seguir por qualquer cidadão responsável. Criar algo por iniciativa própria, ultrapassar obstáculos, desenvolver novas soluções, delinear projetos, identificar oportunidades, gerar lucro, alcançar objetivos, inovar, marcar a diferença, fazer acontecer.

E como fazer tudo isto? Com força, determinação, persistência, trabalho, criatividade, competência, pró-atividade, confiança. É algo que está ao alcance de todos, basta querer. Será?

O Mito

Nas democracias modernas o cidadão é governado através da liberdade com que conduz a sua vida e realiza o seu potencial em consonância com os objectivos políticos do sistema em que se insere. Este processo pressupõe a posse de qualidades auto-governativas, tais como a responsabilidade pessoal, a iniciativa, a ambição e a autonomia. Através do discurso produzido, legitimado e disseminado pelos agentes políticos, o cidadão é levado a entender a dimensão individual de riscos sociais como a pobreza e o desemprego, tendo a responsabilidade de gerir a sua vida no sentido de os evitar. Está aqui implícito um entendimento do Poder enquanto produtor de conhecimento e discursos passíveis de serem assimilados pelos indivíduos, condicionando o seu comportamento individual e colectivo, favorecendo deste modo a sua auto-governação e a eficiência do controlo social.

A gestão das políticas sociais, que abrange ameaças para o sistema como a pobreza e a exclusão social, dá origem a um discurso distinto do académico e intermediário entre o nível analítico-programático e as exigências da intervenção social directa. Este discurso é passível de assumir de forma mais explícita a perspectiva do Poder, dado que o objecto do seu saber não é eminentemente científico, mas sim um objecto sobre o qual se irá agir. O seu objecto consiste no conhecimento dos meios que permitem manter uma prosperidade pública que complemente o bem-estar moral (ordem) com o bem-estar material (conforto).

A ideologia neoliberal, que exerce uma influência considerável nas nossas sociedades, defende a liberdade individual acima de tudo, e com ela vem a responsabilização do indivíduo, a qual se sobrepõe à responsabilização institucional. Há mais de 10 anos que a União Europeia, confrontada com o envelhecimento populacional e o desemprego, se debate com a necessidade de incrementar a sua competitividade. Sob o domínio neoliberal o caminho encontrado tem passado por uma tentativa de reduzir o custo do trabalho, a qual tem afetado principalmente os Estados mais frágeis, como Portugal. Já há anos se falava na «flexisegurança», outro slogan que caiu em desuso mas que já denotava um relaxamento das regras relativas às relações laborais, no sentido de facilitar os despedimentos e a circulação dos trabalhadores.

Tem-se assistido a uma substituição gradual das tradicionais noções de cidadania social por responsabilidades privadas e uma socialmente frágil cidadania activa. Uma concepção neoliberal de direitos e responsabilidades de cidadania ganha terreno sobre uma concepção de cariz mais equalitário e é demonstrada na importância concedida à crescente responsabilização dos cidadãos pelo seu próprio processo de inclusão social, que varia em proporção inversa à responsabilização dos Estados e instituições neste mesmo processo. A relevância concedida ao crescimento económico centra os direitos sociais essencialmente na questão da educação e competência profissional, com o objectivo de tornar os cidadãos mais «empregáveis». O empreendedorismo assenta que nem uma luva neste processo.

A Realidade

O fato do empreendedorismo ter implícita uma dimensão mitológica não anula a sua validade em termos de aplicação prática. O mito neoliberal do self made man, que pode ser atirado nú, de um helicóptero, para o meio da floresta amazónica, que de lá irá emergir de forma triunfal, enquanto detentor de uma vasta fortuna, é uma violência exercida sobre pessoas fragilizadas pela perda de direitos laborais e pela precariedade da sua situação económica.

Mas nos dias que correm, no contexto em que vivemos, o empreendedorismo não é apenas uma escolha, é uma necessidade. Para o bem e para o mal, a mão protetora do Estado já não está lá para salvaguardar o nosso bem-estar nos momentos de maior carência e o mercado laboral não se abre às nossas solicitações. No entanto, o sucesso não está ao alcance de todos, não basta querer. O querer é essencial neste processo porque determina os fatores que podemos influenciar: a motivação, a aquisição de competências, a busca por oportunidades. É mais difícil exercer influência sobre outros fatores igualmente determinantes, fatores conjunturais de ordem económica, fatores governativos de ordem política. O fracasso faz parte do caminho de muitos empreendedores e nem sempre esse fracasso pode ser atribuído, pelo menos não exclusivamente, a fatores inerentes ao próprio indivíduo. Temos que sacudir o estigma da culpabilização do nosso capote, e seguir com a confiança de quem deu o seu melhor, mas com a consciência de que o nosso melhor nem sempre é suficiente.

Camila Rodrigues

Mulheres à Obra


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