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Género e Raça – O corpo negro feminino

corpo negro feminino

O corpo como identidade, como fenómeno ou como lugar de acontecimentos, tem sido objecto de vários estudos na Europa, os quais tiveram uma grande expansão durante o séc. XX. Este foi apelidado de “o século do corpo”, pela importância que o corpo assumiu neste período, enquanto objecto de estudo, e pela assumpção da consciência da importância dos valores e práticas corporais.

Toda esta evolução no âmbito e conceito do corpo parece ter-se cingido a uma visão europeísta do mesmo e, não obstante os esforços de alguns estudos antropológicos, tem sido pouco explorada a questão do corpo perspectivado de um ponto de vista menos clínico – encarado como realidade complexa e multidisciplinar – noutras sociedades e culturas, exteriores às sociedades europeia e americana. Acreditamos, porém, que esta escassez de estudos não se deva a uma falta de interesse, mas talvez a uma dificuldade maior que se prende com a realização desses mesmos estudos.

E assim é formulada a grande questão: Que diferenças e que similaridades traçam as visões do “corpo branco” e do “corpo negro”? E que especificidades caraterizam o corpo negro feminino? A compreensão do fenómeno da significação do corpo negro feminino e das relações dessa significação com as novas perspectivas que o estudo do corpo, numa visão mais fenomenológica ou existencialista, nos tem dado de um corpo que podemos designar de “branco”, só é possível com a compreensão de todo o passado que, inegavelmente, deixa marcas e influencia o presente em que nos encontramos.

O corpo feminino, essa misteriosa e enigmática figura, fenómeno complexo de difícil definição, é muito mais do que ossos e pele e músculos, é uma realidade carregada de forte simbolismo, público e privado, positivo e negativo, político e económico, sexual, moral e geralmente controverso.

Mas então, como falar e escrever sobre tantos fenómenos ocorrendo num só? Como sintetizar e resumir em palavras tamanha complexidade? O corpo negro feminino é, antes de mais, um corpo, e por isso, como corpo que é, agrupa em si todas as problemáticas de definição e objectivação que assombram O Corpo, no seu sentido universal. Acresce-se a essas mesmas problemáticas, outras que são específicas do corpo negro feminino.

Esse corpo negro é uma entidade que se constrói, destrói e reconstrói pelas inúmeras influências que recebe dos vários contextos que o envolvem e das complexas interacções que entre elas se estabelecem. Todo o passado histórico da mulher negra, as marcas da escravatura, do corpo comercializado com vista ao lucro, da exploração sexual e reprodutiva, da desculturação que ocorreu como consequência da colonização e das estranhas e complexas relações de dominação/submissão entre o povo que tinha o poder e os povos negros colonizados, têm pois uma manifesta influência no modo como o corpo negro feminino é vivido e sentido actualmente e no simbolismo que carrega, nomeadamente na hipersexualização a ele associada no contexto da sociedade capitalista patriarcal e nas suas potenciais consequências em termos de saúde e direitos sexuais.

Yonara Mateus

The English Affair

Vive entre Angola e Portugal, mas tem o coração no mundo… e a cabeça sempre na lua. Depois da licenciatura em Reabilitação Psicomotora, entrou, por acaso, para a área da Formação, já há mais de 10 anos, e aí foi ficando, entre o palco e os bastidores. Apaixonada por Desenvolvimento Humano, fascinam-lhe as pessoas, os comportamentos e as palavras. Provocadora nata, viciada em chá, em 2013 fundou o TEA (The English Affair)…que é, em tudo, o projecto que mais se parece com ela.


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