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Quebrar Barreiras

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Queria contar-vos a história da Rita (nome fictício). A história dela tem-se repetido vezes sem conta ao longo dos meus 14 anos a ensinar inglês. Mas apanha-me sempre de surpresa.

Ao entrar na primeira aula do curso English for Life, a Rita disse de imediato: “Não me faça falar à frente das pessoas”. Como professora, cabe-me esclarecer, tranquilizar e procurar como resolver este claro contrassenso: integrar um curso de conversação e não querer falar.

Enquanto pessoa, compreendo claramente esta vontade de querer avançar e, ao mesmo tempo, não ter coragem de desafiar o que precisa de ser desafiado. Por isso, trabalho intensamente os elementos emocionais da aprendizagem de uma nova língua nas minhas aulas e a vitória sobre o nosso perfeccionismo. Como peço a cada aluno antes de começarmos um curso, venham para cada aula com um só propósito: permitir-se a errar. Do resto, trato eu.

De volta à Rita… Depois daquele primeiro dia do curso fui para casa pensar em actividades para que ela estivesse mais à vontade para falar sem ser frente ao grupo todo. Trabalho em pares, etc. Mas não seria isso que iria mudar este receio de errar.

Eu tinha de procurar um objectivo mais profundo para a comunicação em inglês. Mais real, mais humano. Como nos meus novos cursos os alunos escolhem os temas de conversação, fui sempre tentando que a Rita pudesse partilhar a sua opinião sobre os temas que lhe interessavam. Sem reparar, porque era mais importante para ela expressar as suas ideias do que preocupar-se com saber o verbo ou a preposição certos, foi-se abrindo. Mas não chegava.

A par do inglês, fomos conversando (também em inglês) sobre o porquê do diálogo na nossa vida. O que aqui por aqui andamos a fazer. E as melhoras continuavam.

Até que chegámos à última aula. Nesta altura, já a Rita falava sem vergonha à frente do grupo. Frases inteiras. É importante referir que o grupo em que estava integrada tinha mesmo os mínimos de inglês necessários para manter diálogo. No final do curso de três meses que fizeram, já tinham sem dúvida evoluído, mas o normal que, para mim, seria de esperar de um destes cursos de conversação.

Este grupo em particular, escolheu usar a última aula para poderem fazer uma pequena apresentação sobre si próprios. Só isso me disseram. Naquele momento, vi um pequeno toque de angústia no rosto da Rita. Tempo totalmente sozinha a falar, sem interrupções, frente aos colegas. Entrou na aula tendo preparado tudo o que queria dizer.

Naquele dia de Inverno, pude assistir a um dos momentos mágicos que ninguém pode planear. Uma aluna começa a falar e diz que quer fazer uma apresentação sobre a sua vida para que todos os colegas saibam que podem sempre vencer na vida. Estava tudo dito. Quando o inglês é usado para chegar a outra pessoa, acontece o tesouro da vida de não nos preocuparmos com inibições. O que importa é chegar ao outro. O que se passou a partir daí, apresentação após apresentação, só mesmo estando presente. Caíram todas as barreiras entre estas pessoas. Com um inglês pequenino e nem uma palavra de português, rimos, chorámos, os alunos fizeram perguntas uns aos outros, sem se preocuparem com o Do, o Have, o to Be. Estavam a comunicar com toda a fluência.

Quando chegou a vez da Rita, muito organizada fez a sua apresentação e pôde ver a melhoria dos três meses de curso. Até que falou a colega seguinte, numa partilha de uma dificuldade muito particular. E penosa. A Rita ouviu. Sem papel, sem plano, deixou a colega terminar e disse “I have to speak”. Queria contar a sua história. Outra história. Uma que sabia podia ajudar a companheira de turma. O inglês que saiu e a clareza com que o fez foram surpreendentes. Eu que já vi tantas vezes as pessoas ultrapassarem todas as suas expectativas, aquilo nunca tinha visto. Saí de coração cheio e tendo aprendido muito. Na experiência real, pude confirmar que Vencer na Vida é Ligarmo-nos aos Outros.

Obrigada, Rita.

Ana Calha
English For Life


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