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Confiar para Empreender

Confiança

Quando gerimos um grupo de mulheres empreendedoras em Portugal rapidamente nos apercebemos de um facto preocupante: com alguma frequência, estas mulheres «desconfiam da confiança».

O senso comum (ou mau senso generalizado) oferece-nos uma vasta diversidade de clichés que fornecem pseudo-explicações para este facto, muitas delas relacionadas com a suposta propensão do universo feminino para a maledicência, a rivalidade e a falta de solidariedade.

Se optarmos por rejeitar estes preconceitos e analisar a questão mais a fundo, facilmente nos deparamos com outra explicação, esta sim, devidamente sustentada em dados recolhidos e analisados segundo critérios científicos.

A sociedade portuguesa é uma sociedade de baixa confiança

Esta característica persistente da sociedade portuguesa revela-se em índices de referência como o World Values Survey ou o European Social Survey, que periodicamente comparam os níveis de confiança em diversos países.

No contexto da Comunidade Europeia, Portugal aparece nos últimos lugares em termos de confiança. Os portugueses tendem a olhar uns para os outros com suspeição, tal como desconfiam das instituições, de entidades públicas e privadas, de atores coletivos e individuais, do patrão e do colega, de si próprios e do vizinho do lado. Em suma, desconfiam de tudo e mais alguma coisa.

Quando passamos dos grandes estudos quantitativos para a análise dos pormenores da nossa vida diária, esta realidade facilmente nos salta à vista. Num estudo histórico-comparativo que efetuei em 8 organizações, constatei como a desconfiança esteve sempre presente em todas elas, ao longo de mais de 40 anos de vicissitudes sociais, políticas e culturais, em contextos muito diversos que implicaram uma ditadura, uma revolução e a uma democracia.

Curiosamente, esta desconfiança manifestou-se independentemente de qualquer factor que a pudesse ter despertado. É uma desconfiança à priori: em vez de se dar o benefício da dúvida, dá-se o malefício da desconfiança que se manifesta independentemente da existência de qualquer evidência que a justifique.

Esta desconfiança manifesta-se geralmente por acusações de enriquecimento ilícito e/ou apropriação de bens alheios, mesmo quando não existem quaisquer riquezas ou bens em jogo. Os alvos preferenciais da desconfiança são os dirigentes/líderes das organizações e/ou movimentos sociais, mas também os próprios pares.

É o que por vezes acontece no grupo Mulheres à Obra e é o que lutamos todos os dias para contrariar.

E porquê?

A Doença: Causas e Consequências

Porque a desconfiança é um cancro que corrói o nosso tecido social. Impede-nos de agir coletivamente em função de objetivos comuns; inibe o nosso empreendedorismo e a nossa disponibilidade para arriscar; compromete a nossa capacidade para criar sinergias e desenvolver parcerias; etc, etc, etc.

Somos nós contra o mundo, tal como foi descrito por Edward Banfield, cientista político norte-americano que no final dos anos 50 do século XX publicou «As Bases Morais de uma Sociedade Retrógrada».

Nesta obra utiliza o termo polémico «Familismo Amoral» para descrever uma sociedade desprovida de laços de solidariedade para além dos oferecidos pela família nuclear, em que pessoas desprovidas de recursos competem entre si por oportunidades escassas num mundo de incerteza e privação.

O seu estudo, conduzido numa pequena aldeia no sul de Itália, tem sido extrapolado para outras regiões do Sul da Europa, sendo equacionada a possível existência de uma matriz cultural comum que une estas regiões num destino trágico de atraso crónico.

Não vamos entrar aqui neste longo e nem sempre pacífico debate, «mas que as há, há». Ou seja, a desconfiança interpessoal existe e persiste em Portugal, e independentemente das suas causas, deve ser combatida.

A Cura: Tratamento e Prognóstico

Para vencer a desconfiança é preciso transformar o círculo vicioso que a alimenta por um círculo virtuoso que a anula. Esse círculo virtuoso envolve determinados fatores que procuramos estimular no grupo Mulheres à Obra. São eles:

Igualdade: a constituição de uma rede horizontal de envolvimento cívico é o ponto de partida das Mulheres à Obra. Portugal é um dos países mais desiguais da União Europeia, fenómeno que anda a par da desconfiança interpessoal. Procuramos por isso contrariar esta tendência aproveitando o caráter aberto e anti-hierárquico do próprio Facebook. Qualquer pessoa pode aderir a esta rede (ok, qualquer pessoa que tenha acesso à internet, não é perfeito) e qualquer mulher pode aderir ao nosso grupo. Fazemos questão de não colocar questões nem critérios de adesão que possam intimidar ou inibir o acesso ao grupo, nem consultamos os perfis das candidatas. Quando aderem não fazemos ideia de quem sejam e cada uma tem igual direito de participação.

Pontes sociais: esta situação de igualdade entre diferentes permite construir pontes que atravessam clivagens sociais (geográficas, partidárias, ideológicas, religiosas, étnicas, de rendimento, etc). O diálogo, a partilha e a deliberação que ocorre no grupo entre mulheres com formações, experiências e situações pessoais/profissionais diversas obrigam cada uma a sair da sua «tribo» de semelhantes e a ver mais além, para aquilo que é o bem comum. Este alargamento de horizontes desenvolve a empatia e a compreensão face às necessidades e contingências da vida de outras pessoas e favorece a criação de consensos.

Reciprocidade: a igualdade elimina as relações hierárquicas de dependência e favorece o relacionamento entre pessoas que estão numa situação equilibrada em termos de conhecimentos, oportunidades, recursos e competências. Estas pessoas poderão mais facilmente reconhecer o valor justo do trabalho/contribuição umas das outras e estarão dispostas a estabelecer acordos que prevejam uma retribuição adequada, seja monetária, seja em géneros, serviços ou de qualquer outra forma acordada entre si.

Confiança Interpessoal: num contexto em que prevalecem relações equilibradas de reciprocidade, aumenta a perceção de que as outras pessoas não irão agir de forma a prejudicar-nos intencionalmente. As expectativas positivas relativamente aos comportamentos dos outros tornam-nos mais aptas a correr o risco calculado de aceitar a vulnerabilidade que decorre das parcerias, acordos e outras relações que surgem naturalmente num processo de empreendedorismo.

Atividade Cívica: se as pessoas confiam umas nas outras e se regem segundo normas de reciprocidade, se se vêem umas às outras como iguais e estão dispostas a retribuir aquilo que lhes é concedido, têm motivação para se organizarem coletivamente em função de objetivos comuns. É através desta da experiência participativa que adquirem competência cívica, entendida enquanto a capacidade para deliberar em conjunto e para utilizar as organizações na defesa de interesses comuns.

Resumindo e concluindo

Nas palavras do cientista político Larry Diamond, uma comunidade cívica é um tipo específico de sociedade civil baseado em relações horizontais de confiança, reciprocidade, cooperação e participação ativa. A comunidade cívica apresenta elevados níveis de Capital Social, entendido como a confiança, as normas e as redes que facilitam a cooperação para o bem comum.

A construção de uma comunidade cívica exige elevados níveis de confiança interpessoal, entendida não como uma confiança cega e crédula, mas sim como a boa fé exercida de forma consciente e refletida. Acima de tudo, exige que cada uma de nós mantenha uma elevada dose de responsabilidade pessoal, pois só se nos conduzirmos com honestidade e respeito poderemos gerar e merecer confiança.

 “É impossível criar movimentos sociais quando não se consegue motivar as pessoas para aderirem às organizações da sociedade civil, e só se sentirão inspiradas a fazê-lo caso os seus concidadãos tenham um ideal de responsabilidade cívica perante a comunidade”.

Francis Fukuyama, em Ordem Política e Decadência Política

Camila Rodrigues
Mulheres à Obra


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