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Trabalhar em casa: inferno ou paraíso?

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Sempre imaginei que trabalhar por conta própria, em casa, seria como viver no paraíso. Teria o controlo dos horários, podendo ajustá-los diariamente de acordo com a minha conveniência; seria a única responsável por tomar as decisões, o que me daria uma grande liberdade; não estaria sujeita a ordens de ninguém, nem ao controlo de um superior hierárquico; poderia coordenar as obrigações profissionais com as domésticas e familiares; as minhas refeições seriam muito mais saudáveis e feitas a hora; teria folgas e férias quando quisesse; viveria menos stressada e cansada.

Imaginei que seria assim até que me vi a trabalhar por conta própria, em casa, sozinha. Afinal, os dias de trabalho parecem não ter fim; só consigo tirar meios dias de folga muito de vez em quando e, na maioria dos casos, para tratar de assuntos pessoais ou da família; faço muitas refeições em frente ao computador, devorando a comida em vez de a saborear; tenho que tomar as decisões todas sozinhas, o que nem sempre é fácil e cria bastantes dúvidas e angústias; às vezes, estou a trabalhar e a olhar para a roupa que está na máquina à espera de ser lavada, para o chão que precisa de ser aspirado ou para o pó que parece nascer nos móveis; vivo stressada e cansada e durmo e acordo a pensar no trabalho.

Antes de avançar, uma breve explicação sobre o meu trabalho. Dirijo um jornal digital – Os Bichos -, que é actualizado pelo menos três vezes ao dia. Nem sempre faço reportagens no exterior, pelo que muito do meu trabalho é feito no computador, pesquisando notícias interessantes ou temas que possam ser explorados, ou ao telefone, fazendo entrevistas ou agendando serviços com os repórteres de imagem. Faço ainda a divulgação das notícias nas redes sociais e a análise do desempenho do website, importante para conseguir publicidade (de onde virão as receitas). Além disso, neste momento, tenho ainda em mãos a escrita de dois livros e a gestão burocrática da empresa (mesmo tendo contabilista, há obrigações que são responsabilidade dos sócios-gerentes).

Tento convencer-me de que esta é apenas uma fase de adaptação a esta nova vida profissional e que, em breve, tudo será mais simples e natural. Até porque já vejo melhorias significativas desde o lançamento do jornal (a primeira semana foi verdadeiramente caótica). Não sei se por aí haverá mais mulheres a passar por situações semelhantes. Gostava de aqui vos deixar algumas reflexões que tenho feito também com a ajuda da minha coach, Paula Dias Klose, da ID Training:

 

Sempre alerta… ou talvez não

Uma das primeiras coisas que faço quando acordo é conferir os emails (o meu pessoal, o da empresa e o do jornal) e as redes sociais, para ver se há alguma mensagem urgente, alguma resposta a um pedido ou algum comentário que deva ser respondido. Muitas vezes, faço-o ainda na cama. Ao longo do dia, sempre que oiço do sinal de chegada de uma nova mensagem ou de uma interacção nas redes sociais, vou logo verificar. O que além de me criar bastante stress, desconcentra-me se estiver a realizar outra tarefa. Aos poucos, tenho tentado ir à Internet só depois de ter tomado o pequeno-almoço e, durante o dia, desligo-me por completo durante períodos cada vez maiores.

 

Aproveite a ajuda que lhe oferecem

Por defeito ou feitio, habitualmente, só peço ajuda em casos extremos, o que nem sempre é uma boa decisão. Porque uma decisão tomada tarde, pode ter consequências graves. Como diz um vizinho meu, se as pessoas oferecem ajuda, é porque querem mesmo ajudar e recusar essa ajuda pode ser uma ofensa. Tomar decisões sozinha é muito cansativo. Às vezes, a decisão passa apenas por escolher a melhor foto para ilustrar uma notícia ou escrever um título simultaneamente informativo e apelativo. O que nem sempre é fácil. Outras vezes, passa por delinear estratégias que melhorem a performance do website, como atrair mais leitores ou mais seguidores nas redes sociais. E por muito que se leia na Internet sobre estes assuntos, não há nada que substitua uma troca de ideias com quem sabe do assunto. Felizmente, tenho a sorte de ter amigos que me ajudam nestas e noutras decisões. Só falta mesmo deixar de pensar que estou a chateá-los e recorrer à sua ajuda quando necessário (sem abusar, claro!). E estar também disponível a ajudá-los quando eles precisam.

 

Dormir a sesta: porque não?

Há dias em que estou extremamente cansada. Física e intelectualmente. Tão cansada que me sento em frente ao computador e a minha mente começa a divagar por tudo quanto é sítio menos concentrar-se no que tenho de fazer. Ou então, começo a cabecear. E assim se passam largos minutos de pura perda de tempo. Às vezes, rendo-me à evidência e durmo uma pequena sesta depois do almoço. Ao início, martirizava-me. Porque no tempo que estive a descansar deveria ter estado a trabalhar. Mas a verdade é que quando o cansaço é muito, o tempo acaba por não render e acabamos por fica ainda mais cansadas e frustradas. Hoje, já não me recrimino. Porque acordo mais revigorada e o meu período de maior produtividade é a partir das 18 horas até madrugada dentro. Por isso, sempre que o trabalho o permite, faço essa pequena pausa a meio do dia. Sem consciência pesada.

 

Ir dar uma volta

Apesar destes dias mais ou menos confusos, tenho conseguido ir às aulas de Pilates duas vezes por semana. Nesses dias, organizo o trabalho de modo a que entre as 17h30 e as 19h30 não tenha que pensar em mais nada. O que nem sempre é fácil. Tento também, pelo menos uma vez por semana, trabalhar fora de casa. Num café, numa biblioteca, numa faculdade. Basta ter o computador e acesso à Internet. Parecendo que não, mudar de ambiente ajuda a descomprimir e a arejar as ideias.

Estas são apenas algumas das reflexões que tenho feito a partir da minha experiência. Que reflexões, truques, dúvidas e medos têm vocês, mulheres que trabalham em casa por conta própria?

 

Fátima Mariano

Directora de Os Bichos – O seu jornal sobre vida animal

Revisora de Texto

Investigadora integrada no IHC NOVA FCSH

 

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