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Cansada Demais para Pensar. Pensativa Demais para Descansar.

“Este é um grupo para empreendedorismo. Aqui não é lugar para discutir política.” Assim dizia uma enxurrada de comentários num post sobre as eleições presidenciais de 2018 no Brasil num grupo português online de empreendedorismo feminino.

Desde rejeições sumárias à iniciativa de reflexão, passando por discussões polarizadas e dualistas mescladas com teorias da conspiração até chegar no oásis epistemológico de alguns debates construtivos, os mais de 150 comentários assinados por mais de 40 pessoas renderam muita polêmica.

Fiquei bastante intrigada com o conteúdo que surgiu ali, constatando, pela minha modesta observação pessoal, que a política – institucional ou não – é mesmo fruto da pluralidade que caracteriza o ser humano e que as coletividades têm contradições próprias, que excedem as contradições dos indivíduos.

Nada de novo sob o sol das ideias: pensadores como Morin, Pascal, Heráclito, Kant, Spinoza, Marx, Nietzsche, Freud, os psicanalistas e tantos outros me antecederam nessa percepção da complexidade e da dinâmica das massas,o que me deixa mais tranquila em afirmar o que afirmei (risos!).

O post foi sugerido por uma das administradoras do grupo e revelou não só o despreparo para a discussão sobre política mas, principalmente, a indisposição e o desinteresse de grande parte das pessoas em debater qualitativamente o tema, não obstante sua relevância, amplitude e influência direta sobre nossas vidas.

E é essa indisposição que mais chama à atenção, pois com vontade chega-se à qualidade, mas, sem ânimo, permanece-se no obscurantismo e na ignorância, dando espaço para a ascensão do autoritarismo, deixando nossa autonomia nas mãos de terceiros – governantes, gurus, padres, pastores, maridos, patrões etc. – e, em última análise, esvaziando-se por completo o sentido da palavra democracia.

Esse desânimo generalizado é causado por uma lógica patriarcal predatória, pautada na dominação que, por sua vez, depende da alienação intelectual, emocional e corporal da população. Nós, mulheres, passamos por isso com maior intensidade ao longo dos séculos e somente cerca de quatro décadas para cá a sociedade apresentou alguma evolução capaz de iniciar uma mudança nessa ordem de coisas. Mas ainda estamos indispostas a digerir o gosto amargo que a democracia muitas vezes tem.

Hoje, podemos sair das nossas tendas vermelhas(*) e formar grupos como o Mulheres à Obra®, dedicados à atuação intensiva e ostensiva na sociedade. Deixamos o espaço privado-doméstico para ocupar lugares na vida pública, através do mercado e das instituições políticas. E, nesse êxodo, o empreendedorismo é uma das principais chaves de autonomia para as mulheres, pois além de leva-las para esses espaços, permite que escolham o que fazer, como, onde, com quem e quando.

Todavia, esse trânsito por segmentos “novos” para nós trouxe-nos a responsabilidade de pensar, debater e agir politicamente dentro e fora deles. E, se nos colocamos no mundo como empreendedoras, significa que valorizamos ideias como independência, autonomia e liberdade. Portanto, é absolutamente incongruente empreender e, ao mesmo tempo, negligenciar todo um contexto estruturado para funcionar a partir da dominação e da alienação generalizada da população.

É importante ressaltar que a lógica patriarcal – essa que se sustenta na dominação – antecede cronológica e ideologicamente a própria democracia, uma invenção grega do século VI a.C. Assim, tal lógica está na base da formação do regime político no qual a maior parte do mundo vive hoje, razão por que é vital estarmos sempre, repito, sempre problematizando a política, o que significa justamente exercer a cidadania.

Admito que este é um exercício cansativo. Viver democraticamente é cansativo. Exige uma enorme responsabilidade e uma cota importante de vigilância (de si e dos outros), pois aquelas contradições humanas estão sempre à espreita, prontas para vir à tona ao menor ataque às nossas vulnerabilidades, quando mostramos nossos dentes e garras autoritárias e clamamos para que haja um salvador da pátria, alguém que nos legitime.

Diante dessa breve reflexão, retorno ao fenômeno ocorrido no grupo e concluo com o sentimento que o dramaturgo brasileiro Ariano Suassuna chama de “realismo esperançoso”: mesmo quando em grupos menores, temos ainda muita dificuldade de viver uma democracia plena, talvez nem saibamos imaginar o que é isso tampouco como se opera na vida real.

Mas estamos nos exercitando neste sentido. Arethé. A prática que leva à perfeição, como já nos ensinava Aristóteles, um dos pais da democracia.

Renata Netto

Renata Netto é advogada e filosofa de formação e atua como dinamizadora de crescimento de advogados, advogadas e escritórios de advocacia, traçando com eles estratégias de liderança, gestão, comunicação e marketing jurídico dentro dos parâmetros legais. Ao nível do voluntariado, facilita um grupo online de mulheres pelo resgate e valorização da força feminina na vida prática.

Fotografia de Marc Sendra martorell no Unsplash

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