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As Redes sociais como instrumentos do bem

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Há algumas semanas,  a Revista Visão pediu-nos o testemunho para um artigo sobre o poder das redes sociais.

Enviámos este texto que foi escassamente citado, pelo que o reproduzimos aqui com alguns acrescentos que entretanto nos parecem válidos e pertinentes:

O grupo Mulheres à Obra nasceu em Março de 2017, de forma espontânea, a partir de uma discussão num outro grupo de Facebook sobre as dificuldades da conciliação da vida familiar com as exigências laborais. Duas desconhecidas decidiram então criar o grupo Mães à Obra, que posteriormente evoluir para Mulheres à Obra.

As Mulheres à Obra assumem-se enquanto uma plataforma colaborativa de mulheres empreendedoras que reúne mais de 80 000 mulheres. Temos um Portal, uma revista digital e vamos lançar uma academia de formação. Para além disso, organizámos já duas conferências «As vozes do empreendedorismo feminino» e estamos a preparar a terceira conferência para o início de 2019, que irá incluir uma feira de empreendedorismo feminino.

O Facebook permitiu o nascimento e o crescimento, a custo zero, de um movimento que assume já proporções consideráveis.

É uma rede social que fornece um conjunto muito interessante de ferramentas (grupos, páginas, eventos) que permitem a agregação de pessoas com interesses comuns e facilitam a discussão, a partilha, a troca de informação, a mobilização em função de objetivos comuns, a criação de parceiras, o levantamento de oportunidades de negócios, entre muitas outras coisas.

Qualquer pessoa com acesso à internet e conhecimentos básicos de informática consegue criar e dinamizar o seu perfil e pode aderir a grupos como o nosso. Por esta via, o Facebook apresenta um importante efeito de promoção da equidade: os perfis são relativamente anónimos e, para além do nome e da fotografia da pessoa, pouco mais se consegue ver quando alguém adere e interage no grupo.

Numa sociedade ainda muito desigual e hierarquizada como a nossa, pessoas com experiências, formações, competências e rendimentos muito diversificados saem da sua «tribo» e convivem em pé de igualdade.

É uma experiência extremamente gratificante, apesar de nem sempre ser pacífica, pois ajuda-nos a abrir horizontes e a ver para além dos interesses imediatos do nosso grupo de proximidade, o que por vezes origina algum desconforto e estranheza.

Para além do Facebook, outras redes sociais oferecem oportunidades semelhantes. Se as utilizarmos de forma consciente e responsável, enquanto cidadãos que compreendem e respeitam o seu papel numa democracia liberal, poderemos explorar este enorme potencial para criar sociedades mais participadas, esclarecidas e justas.

As Redes sociais como instrumentos do bem, ou do mal

As redes sociais são essencialmente veículos que facilitam o relacionamento entre os indivíduos; somos nós, enquanto utilizadores, que determinamos a natureza deste relacionamento. Quando se acusam a redes sociais de veicular notícias falsas, informação duvidosa e afirmações caluniosas, são na realidade os seus utilizadores que o fazem. E se o fazem ali, não o farão igualmente noutras esferas na sua vida e por outras vias?

Não é interrompendo os veículos de comunicação e o acesso à informação que se promove uma deliberação informada e uma cidadania consciente. O silêncio não é um bom antídoto para a ignorância, é antes um apoio à sua perpetuação.

Umberto Eco captou de forma genial os malefícios  da repressão e da censura do conhecimento na sua obra «O Nome da Rosa»:

“Porque nem todas as verdades são para todos os ouvidos, nem todas as mentiras podem ser reconhecidas como tais por um espírito piedoso, e os monges, enfim, estão no scriptorium para levar a cabo uma obra precisa, para a qual devem ler certos volumes e não outros, e não para seguir qualquer insensata curiosidade que os colha, quer por debilidade da mente, quer por soberba, quer por sugestão diabólica”.

E se durante séculos de obscurantismo a Igreja Católica procurou anular o conhecimento da antiguidade clássica, não podemos agora defender nem permitir que o mesmo fenómeno ocorra noutros moldes e sob novos pretextos.

Se somos pouco informados e pouco esclarecidos, vamos trabalhar  para alterar essa realidade. Vamos aprender a avaliar as fontes de informação ao nosso dispor; vamos aprender a argumentar de forma consistente; vamos trabalhar para pensar mais e melhor. Sobretudo, vamos fazê-lo em conjunto, na deliberação pública, seja ela presencial ou virtual.

Camila Rodrigues

Mulheres à Obra

Fotografia de Thought Catalog no Unsplash

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