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Existe empreendedorismo para além das novas tecnologias?

Websummit

Existe empreendedorismo para além das novas tecnologias? 

Reflexão sobre o apoio público ao empreendedorismo feminino em Portugal

Quando a foto acima surgiu na comunicação social, ficámos naturalmente apreensivas. Se, tal como indicava a notícia, esta foto retratava a abertura do Web Summit e captou o momento em que a comunidade portuguesa de startups foi chamada ao palco, pareceu-nos que revelava algo de preocupante relativamente à desigualdade de género no nosso país.

Hoje pensamos que fizemos uma leitura errada desta situação. Afinal, no dia seguinte uma foto idêntica foi tirada com um palco repleto apenas de mulheres. E, apesar do contexto ser diferente daquele que ditou a primeira foto (empreendedores que recebem apoio público versus empreendedoras que assistem ao evento), as fotos em si são bastante semelhantes.

Ao observador desatento, que são quase todos nos dias que correm, deverá parecer a mesma coisa.

Também deverá parecer a mesma coisa a estas mulheres que aceitaram de bom grado pousar para esta foto. Se o fizeram é certamente porque acreditam que a igualdade de género é uma realidade no empreendedorismo em Portugal, ou que pelo menos estamos no caminho certo para lá chegar.

Apesar desta evidência continuámos apreensivas e tivemos a veleidade de enviar um email ao nosso Primeiro Ministro, com conhecimento para o Presidente da República, a Comissão para a Igualdade de Género e os grupos parlamentares. Neste email solicitávamos apoio para o nosso evento As Vozes do Empreendedorismo Feminino, assim como para as outras iniciativas de mulheres empreendedoras em Portugal (afinal, não somos a última bolacha do pacote!!).

Naturalmente não esperávamos nada que se assemelhe aos 11 milhões de euros anuais, a  multiplicar por 10 anos, investidos na Web Summit, os quais pelo que se diz têm retorno mais do que garantido. Os 13 mil euros que alegadamente foram gastos (ou melhor, investidos) em jantares da Web Summit, chegariam para organizarmos dois ou três eventos nossos. A desproporção é de facto brutal.

No entanto, pelos vistos as nossas expectativas eram exageradas, pois até hoje nem uma resposta recebemos. Esta indiferença só pode ser reflexo da total ausência de fundamento do nosso apelo. Num Estado democrático, um dos maiores indicadores da qualidade da governação é a responsividade dos seus representantes eleitos perante os apelos dos seus eleitores. Quando os principais agentes políticos ignoram um apelo, (incluindo o Professor Marcelo!!!), isto só pode significar que o mesmo é totalmente descabido.

Mas somos teimosas e acreditamos mesmo naquilo que fazemos.

Ninguém retira o mérito à Web Summit, que é um acontecimento de grande relevância que devemos querer manter em Portugal. Mas não podemos viver na lógica do dar a quem tem e tirar a quem não tem, criando depois a retórica ilusória de que todos empreendem em igualdade de circunstâncias.

É importante investir na pluralidade. É fundamental dar voz ao empreendedorismo real, do cidadão comum, independentemente do seu género e da área em que empreende, porque sim, há empreendedorismo para além das novas tecnologias. É necessário que várias pessoas, com uma multiplicidade de saberes e competências, tenham espaço para partilhar entre si a sua experiência.

Há mundo empreendedor para além do topo de gama das novas tecnologias.

Por isso os eventos e outras iniciativas sobre empreendedorismo não se podem limitar a exibir Ferraris, quando a maioria das pessoas conduz um Fiat ou chega ao seu destino de autocarro, mas nem por isso deixa de lá chegar.

Vamos por isso continuar como até aqui, apesar do trabalho incomensurável que dá organizar algo que parece estar muito para além das nossas capacidades. Tal como muitas empreendedoras (e empreendedores) em Portugal, começámos do zero. Quantos de nós acalentam uma ideia de negócio, mas têm 0€ para investir e 0 conhecimentos bem posicionados para nos abrir portas? Mesmo assim não desistimos.

No ano passado batemos a muitas portas até conseguirmos a cedência de um espaço para o evento. Realizámos uma conferência em Lisboa, em seguida repetimos no Porto. Este ano já estamos um pouco mais à frente. Em vez de um dia, a conferência terá dois dias. Em vez de ser apenas uma conferência, teremos também uma feira de empreendedorismo.

Queremos voltar a realizar aquilo que uma participante da nossa conferência no Porto tão bem descreveu:

Um espaço onde se fala abertamente da realidade do empreendedorismo e onde todos se sentem bem em partilhar o teu testemunho, independentemente dos sucessos/insucessos que tiveram que enfrentar.  

Para concretizar este sonho contamos com os apoios e com as patrocinadoras do evento, que são quem torna tudo isto possível. Contamos igualmente com os participantes (mulheres e homens, que são muito bem vindos!), que o enriquecem com a sua presença e contribuem para a sua sustentabilidade. Continuamos a ser um movimento de bases, o que nos permite caminhar com segurança, apesar de ser uma caminhada longa e vagarosa.

Desejamos sinceramente que as mulheres e homens que empreendem em Portugal fora das luzes da ribalta encontrem em si as forças para continuar, apesar das dificuldades constantes que enfrentam e da ausência de apoio e reconhecimento que muitas vezes os persegue. Esperamos poder contribuir para valorizar a sua caminhada com iniciativas como este evento, que celebram a sua voz e a registam o seu percurso.

Bem hajam!

O nosso apelo, enviado por email

Exmo. Sr. Primeiro Ministro António Costa,

As Mulheres à Obra são uma comunidade de mulheres empreendedoras criada no Facebook há um ano e meio e que reúne já perto de 80 000 mulheres.

Até ao momento, todas as iniciativas que desenvolvemos – conferências, Portal, Podcast, workshops, Revista Digital, Academia de Formação, eventos de Networking, têm sido realizadas apenas com o apoio e investimento das próprias mulheres que a nós se juntaram e que acreditam no nosso propósito.

Orgulhamo-nos do poder e da resiliência das mulheres empreendedoras quando se unem em função de um objetivo comum, mas reconhecemos os limites da nossa ação, pois reunimos essencialmente micro empreendedoras com pouca capacidade de investimento.

Por esse motivo, vimos por este meio solicitar apoio para a realização do evento «As Vozes do Empreendedorismo Feminino», o qual visa dar voz às mulheres empreendedoras em Portugal. Este evento, que irá decorrer no final de março de 2019 em Lisboa, incluirá uma conferência e uma feira de empreendedorismo feminino.

À semelhança do que aconteceu em iniciativas anteriores, acreditamos que iremos organizar um evento de qualidade, apesar da sua pequena dimensão e da limitação dos meios e recursos disponíveis. No entanto, sabemos que se tivermos apoio público poderemos fazer ainda mais e melhor e, sobretudo, teremos um impacto mais intenso e duradouro no percurso empreendedor de muitas mulheres.

Para apoiar a sua reflexão sobre a pertinência do nosso pedido invocamos uma fotografia da Web Summit deste ano que capta um momento simbólico do evento. Esta fotografia levanta-nos duas questões: a ausência de mulheres neste momento, que representa possivelmente a ausência de mulheres portuguesas em papéis de destaque em todo o Web Summit e, de forma mais abrangente, na área das novas tecnologias; e a discrepância entre o protagonismo concedido às novas tecnologias e o relativo esquecimento a que são votadas outras áreas de atividade, nomeadamente aquelas onde a desigualdade de género é menos evidente. Ou seja, esta imagem poderá simbolizar o apoio que tem sido dado, ou não, ao empreendedorismo feminino em Portugal.

Com esta fotografia tão reveladora em mente, pedimos-lhe que pondere o nosso pedido e que o interprete como apenas um dos muitos passos que o Estado no geral, e este governo em particular, têm que dar no longo caminho que ainda há a percorrer até que a igualdade de género seja uma realidade no nosso país. Somos apenas uma das organizações de mulheres e para mulheres existentes em Portugal, mas não somos a única. O nosso evento é um de vários que celebram o empreendedorismo feminino em Portugal e que requerem o devido reconhecimento, apoio e protagonismo.

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