Avó Maria

A história da minha avó Maria tem início numa aldeia a Sul do Equador, poucos anos passavam do início do século XX.

Quando o tempo ainda se media na sucessão das colheitas de cana de açúcar, mandioca, batata doce e banana pão, e as meninas se faziam mulheres entre o Cacimbo e a Estação das Chuvas, passando da cubata do pai para a cubata do marido, tendo por dote uns quantos quilos de fuba, umas quantas galinhas, e única promessa de futuro trabalhar desde o nascer do dia até ao pôr-do-sol sem ser dona de nada, nem dos filhos.

Nesse Dombe Grande da minha alma africana parece que pouco mudou desde então. Mas mudou tudo. O tempo agora tem consigo a marca do antes e do depois da guerra, e, sobretudo, tem gravado no pó os passos das mulheres que, como a minha avó, quebraram o ciclo de pobreza.

Ser capaz de fazê-lo enquanto mulher, negra, pobre, foi extraordinário. Ser capaz de fazê-lo sem trair a sua identidade, respeitando-se e fazendo-se respeitar, mais ainda.

Dir-me-ão que falo da minha avó e que, portanto, o meu julgamento é imperfeito. Sem dúvida que o meu julgamento é imperfeito. Ela era rija, obstinada, intransigente, nariz levantado, dona da sua razão, e tantas vezes muito pouco tolerante ao erro e à frustração, seus e dos que lhe eram próximos. Como são a minha mãe e as minhas tias, filhas de sua mãe. E eu própria, mais vezes do que consigo admitir.

Quanto à minha avó, é preciso perceber que, não obstante o colonial privilégio de ter nascido filha do Soba da aldeia, ela carregava o estigma da classe inferiorizada e subjugada. Na pele. Entre as pernas. Nas oportunidades.

Naquela época, a mobilidade social era um facto insofismável. Ter ou não ter, ser ou não Ser, eram matéria táctil.

Quer dizer, eram tanto objeto, na propriedade, quanto sujeito em autodeterminação. E, por isso, não espanta que na estória da minha avó a pessoa mais relevante além de si própria tenha sido o meu avô. Esse rapaz branco que apareceu na aldeia e a levou com ele, começando a vida, claro está, sob a égide do pragmatismo.

Partilharam a vontade de se libertarem de uma vida pobre, e isso bastou para uni-los até ao fim da vida. Ele vinha de longe e queria estabelecer-se: um negócio próprio, uma casa que pudesse dizer que era sua, filhos, mulher. Por esta ordem.

O meu avô Manuel José era algarvio, e fazia acompanhar este nome tão português dos modos de agir, de pensar e de sentir daquele tempo na Ria Formosa. Por exemplo, a sacralização dos papéis de género e um exercício tradicional da honra assente num único aforismo: “palavra dada é palavra honrada”.

Conta-se que o pai do avô contraiu uma dívida que não conseguiu ressarcir em tempo. E que o filho mais velho foi para África nos anos 30 apostado em fazer fortuna e recuperar a honra da família.

A parte de recuperar a honra fez-se num tempo relativamente curto, tendo em conta a abundância de oportunidades no contexto de Angola na altura. A fortuna deve medir-se no presente de então dos seus conterrâneos em Portugal. Nesses anos, a Metrópole era um território estéril povoado de gente sem esperança, e subjugada pela miséria, pela fome e pelo analfabetismo.

Nasceram filhos, entretanto – um, dois, três, quatro, cinco, seis. A quem repetiram os nomes da família na Ria Formosa, mas, como os de lá longe, sem plano real de futuro além de serem nascidos.

Na cabeça do avô, os catraios já tinham bem mais do que ele por nunca terem conhecido a fome. Na cabeça da avó, os candengues só teriam mais do que ela quando soubessem ler, e escrever, e trabalhar num escritório, e serem empresários e administradores, e ganharem a lotaria, e aparecerem na televisão, e em vídeos no YouTube a dançar. A fazerem tudo aquilo que ela nem nunca sequer ousou sonhar quando dormia olhando as estrelas desde a cubata do pai no Dembe Grande.

Ao longo dos anos, primeiro a casa do Bairro do Benfica, e depois a casa do Quioche, foi-se enchendo de familiares, amigos, conhecidos, à procura de partilhar a boa-sorte do Manuel Zéi, que a todos recebia com trabalho e mesa farta.

Um dia disse-me: “Nini, eu percebi que tinha de fazer pelos meus filhos”.

E foi o que fez. Primeiro anexou à casa do Quioche uma loja. Depois comprou chatas (barcos de pesca). E depois terrenos no Dombe. E transformou, multiplicando, o património da família.

O avô era um homem bom, mas sem horizontes claros ou maiores que os da Tradição. E a concorrência da avó, ainda que “sui generis” pela ousadia, não lhe fazia grande mossa conquanto o homem-pai assim se mantivesse inexorável.

A minha mãe conta que a casa onde cresceram era de muito trabalho, e mesmo que nenhum dos filhos o confesse abertamente, a verdade é que a vida imposta pela mãe era austera. Mais difícil de compreender até que a disciplina do pai, mais assente num provincianismo bacoco do que numa gestão racional de expetativas. De parte a parte.

A minha avó, pelo contrário, tinha um mapa desenhado a regra e esquadro, alicerçado num padrão de exigência inexcedível.

Trabalhar o mais possível, sacrificar-se até à exaustão, demandar que a acompanhassem nesse caminho que foi trilhando para os afastar o mais possível da história dos pobres, escrita a pé, ou na carcaça do comboio do Caminho de Ferro de Benguela. Ou no vaivém constante a caminho da praia e do mercado da Caponte onde há fuba, feijão e peixe seco.

Foram tempos duros. Para as raparigas e para os rapazes. Mais para as raparigas, já se sabe. Mas estudaram todos até poderem usar mangas de alpaca, o que para a minha avó, que aprendeu a escrever o nome completo com cabelos brancos e num caderno de duas linhas, foi de uma felicidade imensa.

Ela sabia – e disse – que se tivesse aprendido ler e escrever a sua vida teria sido completamente diferente. A família agradece. Eu agradeço. A educação formal que nos empoderou a todos. Mas também, e sobretudo, resiliência, a tenacidade, o empreendedorismo da minha avó. E a sua autoconfiança. Nós, mulheres, temos pouca confiança em nós próprias, e ela, no tempo em que viveu, tão avesso ao empoderamento das mulheres, sem poder ter nada que fosse seu, fez-se dona, sem freio, da única coisa que podia: dos filhos.

Do destino dos filhos.

Homenageámos a minha avó na igreja que o meu avô construiu. Depois fomos para a casa de ambos e celebrámos a sua vida. E ainda que tivéssemos ficado tod@s órfãos da sua vontade e da sua utopia, não nos quedámos.

Nós, filhos, netos, bisnetos, somos dessa estirpe de gente que faz força da cor da pele, do género, das capacidades, conhecendo quem somos. E isso é, para mim, o maior legado que a minha avó nos deixou: o exercício magnífico da liberdade.

Onde quer que ela esteja agora – excelsa- eu hoje sou Mulher porque ela, sendo mulher, se Libertou.

Eu amo-te minha Avó Maria,

e segue daqui o abraço saudoso desta tua neta

Nini

 

Karina Carvalho

Socióloga

Membro Fundador da Plataforma de Reflexão Angola

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