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A minha birra com o coaching, mesmo sendo coach

O mundo tá de cabeça pra baixo, pegando fogo, dando uma merda atrás da outra e o que se vê no meio do coaching é mais do mesmo: cortina de fumaça. Fantasia quântica. Milagre da manhã, mágica da tarde e chave-mestra da noite.

Portanto, me parece necessário comunicar como eu exerço a minha prática diante do contexto sociopolítico em que estamos. Marketeiros dirão: “tiro no pé”. Mas que se foda. Não vivemos fora da política, fora da cultura, fora da sociedade.

TUDO é político, TUDO é produção de cultura e TUDO vem de e gera um construto social

Além e por causa disso, há muito tempo também venho sentindo a necessidade de me posicionar sobre o meu ofício e até comecei a escrever um artigo sobre uma “teoria do coaching”, porque ela não existe ainda. E, sendo cria do Direito e da Filosofia e com um crush eterno com a História e as Ciências Sociais, me dá angústia não conseguir nomear bem os fundamentos do meu trabalho. 

As bases do coaching e a ideologia vigente

O que existe para o coaching é um embasamento científico-metodológico emprestado da psicologia (mais das linhas positiva e cognitiva-comportamental) e o escasso e fragmentado enquadramento teórico é “temperado” por muitas áreas do conhecimento, como desporto, negócios, educação/aprendizagem, neurolingüística, das que pesquisei até agora. 

A princípio, não ser uma ciência autônoma não seria um problema em si mesmo para o coaching, porque um ofício não tem que obrigatoriamente ser científico para ser um trabalho digno e ético. Aliás, as várias (que hoje são) ciências começaram sem o ser, partiram do campo da experimentação para se formular a teorização. Até aqui, tudo normal no itinerário tecnocrático.

Mas uma quantidade GIGANTE de coaches fala merda demais. Mas assim: é merda para um caralho. E só falando palavrão que dá pra expressar a quantidade de merda. É possível que eu também já tenha falado alguma merda e vocês podem e devem apontar isso (agradeço que o façam, inclusive), porque estamos aqui pra aprender.

Leio e ouço coisas vindas de coaches com a profundidade de um pires, com a firmeza da espuma, com a nitidez da noite e com a desonestidade intelectual dos piores sofistas que já passaram pela terra. 

Mas tudo isso dialoga com o que o público quer ouvir. São mestres em produzir conteúdo para ser consumido, alimentando uma lógica individualista, meritocrática e fantasiosa que é causadora, senão de todos, pelo menos de uma grande parte dos males que assolam a nossa sociedade hoje.

E, no olho desse furacão em que estamos, eu senti ainda mais essa necessidade de me posicionar:

O trabalho com pessoas e o “empreendedorisismo”

Sou coach, sim. E como tal acredito no potencial que toda pessoa tem de viver a sua  HUMANIDADE em suas mais diversas características e manifestações, nomeadamente no alcance seus objetivos específicos, que é o foco do coaching.

E, como ser potente que é, a pessoa pode e deve intervir no mundo que o/a cerca para alcançar tais objetivos a partir da tomada de consciência desse mundo em tantos níveis quantos ela dê conta de perceber: social, biológico, psicológico, identitário, econômico, político, intelectual, ambiental, enfim.

E é nesse “dar conta de tomar consciência e entrar em ação” que eu quero sublinhar o meu posicionamento: o trabalho com pessoas NÃO é um eterno jogar confete, tampouco uma gritaria de “vai! vai! vai! você consegue, só mais um pouquinho, vai! aeeee!” embora isso tenha lá os seus efeitos (positivos?)…

Facilitar a construção dessa Humanidade depende radicalmente de lidar com a verdade. A verdade do sujeito, dos outros, do Outro, a verdade construída, a verdade imposta, a verdade da mentira e a mentira da verdade. 

Trabalhar com pessoas é trabalhar com limites

Ultrapassar uns, contornar outros, ficar parado em outros por algum tempo até decidir o que se vai fazer a respeito deles. É exorcizar alguns demônios, domesticar outros ou ainda simplesmente acatar a existência de uns outros. 

Talvez você já tenha reparado que eu sou inconstante na escrita profissional aqui nas minhas redes porque me custa muito (mental e emocionalmente falando) criar conteúdo para ser consumido e resultar numa venda (venda comercial ou venda nos olhos?). 

Eu não sou uma marca. Eu não sou uma empresa. Eu não sou “empreendedorista”, muito menos empresária. Já embarquei nessa onda e nunca me senti mais peixe fora d’água que naquela época. Valeu para relembrar o nojo que eu tenho do neoliberalismo, principalmente porque ele dita coisas sobre quem eu sou que eu gostaria muito, muito mesmo que fossem diferentes e eu ainda não consegui exorcizar essa categoria de demônios (os da cultura são dificílimos, creiam).

Fiz essa brincadeira com a palavra empreendedorismo / empreendedora porque a acepção mercadológica que essa palavra ganhou é um desvio do seu real significado. Empreender é um verbo que traduz “decidir realizar (tarefa difícil e trabalhosa); tentar; pôr em execução; realizar”, segundo o dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.

Neste sentido, considero-me, sim, uma empreendedora

E o meu ranço com o coaching é, afinal, com essa lente cor-de-rosa “empreendedorista” através da qual muitos coaches parecem (querer fazer) enxergar o mundo. E, julguem-me: não quero ser comparada muito menos associada a essa prática. Não compactuo com isso, com esse imaginário de que o ser humano segue as mesmas operações que uma empresa.

Uma coisa é despertar as pessoas para as possibilidades que estão além do campo de visão e percepção delas: O que podemos a mais? Como é possível ir além disso que se nos apresenta? Essas são perguntas que moveram e movem o mundo, simplesmente vitais para essa nossa tal Humanidade. 

Minhas ferramentas de trabalho são a Escuta e as Perguntas. Minhas técnicas são compostas por Mediação de Conflitos e a Neurolinguística. Minhas bases teóricas são Direito, Filosofia, Sociologia e História (e, mais recentemente, Psicanálise).

O coaching: como fazer ético e categoria profissional numa certa ordem econômica

E eu acredito que isso que eu faço não é um bem de consumo. É, sim, um serviço na acepção mais elevada e nobre da palavra e esse Servir deve ser remunerado: pelo encontro, pelo despertar, pela dor e alegria assistidas, pelo acompanhamento, pela conexão que se estabelece entre mim e os meus coachees. 

Os profissionais de ajuda/cuidado – cientificamente situados ou não – pagam pelo próprio trabalho com o seu corpo. Com a sua escuta qualificada. Não com a entrega de algo exterior, objetivo, determinado e quantificável por números e gráficos e diagramas e relatórios. 

Todas as métricas criadas e aplicadas nas diversas áreas de conhecimento tidas por profissionalizadas obedecem a um paradigma focado na técnica e que se forjou na era industrial, com o objetivo assegurar que a produção de bens fosse constante e lucrativa. Isso não é uma opinião; é um construto lógico a partir de estudos econômicos e sociais.

Pesquisem e pensem por si

Entretanto, por trás, pela frente, na base e no topo de TODAS as indústrias/empresas, estão, sempre estiveram e sempre estarão as PESSOAS, porque as atividades econômicas não existem sem as pessoas. Por mais que se venha tentando exaustivamente e à loucura mecanizar tudo para otimizar a produção e o lucro, inclusive o elemento humano, é esse elemento com toda a sua complexidade que faz mexer a mão invisível do mercado, desde as grandes corporações até as ecovilas sustentáveis. 

O problema de aplicar esse paradigma econômico aos ofícios dos coaches, psicólogos, terapeutas, massagistas, psicanalistas e mesmo assistentes sociais, educadores, enfermeiros e outros profissionais da saúde é que a nossa produção é sinônimo de criação de VIDA e não de bens de consumo. 

A técnica e as métricas, no nosso caso, servem (e assim deve ser) para assegurar que o CUIDADO com as PESSOAS é que está na ordem do dia. E, acima da técnica, está a ética. Ela vai dizer até mesmo se se aplica ou não uma determinada técnica. 

Eu ainda não tenho a ciência totalmente do meu lado como coach e por isso a minha busca por conhecimento é incansável. E a ética, essa não me falha nunca em me guiar as práticas. É com ela, em última análise, que estou comprometida e pela qual eu me balizo no trabalho com cada pessoa com quem trabalho, pois acredito no coaching como a materialização da rede de apoio, como uma grande ferramenta para dinamizar o potencial humano, que efetivamente auxilia as pessoas a tomarem decisões, a entrarem em ação, a transformarem as suas vidas e a conquistarem aquilo que realmente desejam.

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Renata Netto

Filósofa, Coach, Mediadora de Conflitos e Psicanalista em formação

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