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Uma mulher num mundo de homens

Venho aqui expor um bocadinho aquilo que é ser mulher na minha profissão (Gestão de Sistemas Informáticos – TI, área na qual trabalho e estudo há 17 anos).

Tenho a meu cargo a gestão de toda a infraestrutura informática de 21 empresas. E aquilo que vos vou contar foi espoletado por uma situação de discriminação por parte de outra mulher.

Na minha área, que é um mundo maioritariamente de homens, estou habituada a ter que provar todos os dias aquilo que sei, para poder ter aprovação e gerar confiança nos clientes com problemas que tenho que solucionar.

Se não o fizer, sinto da parte das pessoas uma insegurança enorme e sérias dúvidas de que serei capaz de o fazer, por ser mulher. Às vezes dá-me vontade de dizer que não se preocupem, porque vou fazer um esforço maior com o meu pequenino cérebro de mulher, e vou conseguir.  Claro que não o faço, mas penso.

Passo a expor a situação:

Na empresa onde trabalho angariámos um novo cliente. Enquanto técnica responsável pela gestão TI dessa empresa, desloquei-me à mesma e constatei que esta era gerida por um servidor antigo, pré-histórico.

Recomendei um novo e foi tudo tratado para o substituir. Enquanto o novo servidor não chega, “desenrasquei”. Coloquei um disco SSD e nele uma máquina virtual, para não sobrecarregar o disco antigo.

Eu não alterei nada na máquina virtual, apenas o caminho da sua localização. Acontece que eles tiveram um problema na base de dados, num dos computadores. Isto é, um funcionário, que costumava ligar tudo o que é máquinas virtuais, quando não tinham técnico, foi lá e ligou a máquina virtual antiga.

Isto originou 2 bases de dados, ligadas em simultâneo. Consequentemente, o software de gestão utilizado por essa empresa, num dos computadores de um utilizador, ficou a trabalhar na base de dados mais antiga.

A responsável da empresa pediu-me para ligar à TÉCNICA DO SOFTWARE, à qual me identifiquei como TÉCNICA RESPONSÁVEL de TI. Expliquei-lhe tudo de uma maneira simples e perceptível acerca do que fiz, o que aconteceu, porque aconteceu, para a deixar segura ( como já estou habituada ).

Enquanto estava a falar com ela ao telemóvel, acedi remotamente, parei a máquina antiga e fiz mais alguns testes. Pedi-lhe para reiniciar a máquina que estava com problemas.

A resposta dela: “Ai, eu não sei, mas acho que é melhor falar com O TÉCNICO RESPONSÁVEL”.

Silêncio durante uns segundos, enquanto inspiro e expiro 3 vezes e faço respiração diafragmática para não dizer nada de que me arrependa. Respondo calmamente: “Eu sou a técnica responsável, assim como me identifiquei já no início da chamada. O problema está resolvido, e não voltará a acontecer, por isso peço-lhe que reinicie o computador”.

Resposta dela: “Mas eu não acho que reiniciar vá resolver o problema”. Respondo: “Não, não vai resolver o problema, porque o problema já está resolvido e, tal como lhe expliquei, o problema não foi desse computador. No entanto é necessário reiniciar para que arranque com as configurações corretas.”

Voltei a explicar novamente e calmamente toda a situação. Resultado: Ela recusou reiniciar o computador. Entrei eu remotamente, reiniciei o computador, e efectivamente o problema ficou resolvido.

É frustrante para mim ter que provar todos os dias o que sei.

Isto num mundo de homens, mas quando são as próprias mulheres a duvidar, consigo ver que há estigmas que dificilmente algum dia vão mudar. É difícil de lidar com este descrédito que é atribuído à mulher simplesmente pelo seu género.

Agora vou fazer um pequeno desvio na linguagem, mas será que é mesmo preciso ter uma “pila” para ser um bom profissional em TI? Tenho noção que sou uma excelente profissional e que nesta área, se eu fosse homem, bastava ser amador, ou normal.

Mas não, nesta área eu tenho que ser sempre excelente, e excepcional e nunca errar. Como qualquer profissional cometo erros, e sou a primeira a assumi-los, mas tenho uma frase que uso com frequência:

“Errar é humano… mas comigo, errar é mulher.”

Tenho muitas situações como esta, que deitam qualquer mulher numa área de homens abaixo, mas não me deixo vencer. Acordo todos os dias com garra para trabalhar, e provar a quem quer que seja o meu valor. E tenho quem o reconheça, felizmente! Mas para isso tive que mostrar e provar. Mostrar muito o que sei. O que me entristece é que, se fosse homem, bastava dizer que sou O TÉCNICO RESPONSÁVEL.

Apesar de tudo, é importante que todas as mulheres, independentemente da sua área de actuação, sejam empoderadas, tenham confiança para erguer a cabeça e não deixar que situações como esta as desencoraje.

E vá, meninas, pelo menos sejam solidárias e, antes de pedirem a um homem para acreditar no valor de uma mulher, comecem vocês mesmas a fazê-lo.

Susana Alves

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