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Quando o não deve ser sim

“Não podes mexer aí”, “não te podes sentar no chão”, “não tires os sapatos”, “não escrevas nas paredes”, “não podes comer rebuçados”. A primeira etapa das nossas vidas, designada por infância, é, provavelmente, aquela em que mais vezes ouvimos a palavra “não”, muitas vezes seguida do verbo “poder”, o que na prática resulta na impossibilidade de fazer algo. Por mais ou menos grave que esse algo seja.

E essa impossibilidade pode apropriar-se do nosso sistema cognitivo para o resto da vida, como se de uma limitação às nossas vontades e aos nossos desejos se tratasse.

Isto não seria grave se pensássemos apenas em comportamentos tóxicos e disruptivos, aos quais devemos, efetivamente, conseguir dizer não. Porém, muitas vezes é aos nossos sonhos, aos nossos projetos, aos nossos desejos mais íntimos que estamos a negar a possibilidade de desenvolvimento e de ação.

Quantos de nós já pensámos em mudar de profissão, mudar de cidade, voltar a estudar, pôr fim a uma relação que já acabou faz muito tempo, tirar um mês de férias, fazer uma viagem sem data de regresso?

Muitos! E quantos o fizeram? Poucos. Porque no momento de pensar e tomar decisões todos os medos e dúvidas se apropriam da nossa mente.  O medo de falhar, de não conseguir, de não ter a aprovação dos pais/companheiros/filhos, de ficar só. A dúvida sobre o desconhecido, o que virá depois ou a saudade do que fica para trás.

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Vivemos aprisionados nas nossas decisões ou na ausência das mesmas. E quando nos apercebemos temos quarenta, cinquenta, sessenta anos e a vida está a acontecer ao nosso lado. E continuamos dependentes da palavra não.

Até quando?

Até quando deixamos que a carga cultural e educacional que trazemos dos primeiros anos de vida nos influencie o presente e o futuro? A vida acontece no agora, dispensa repetições traumáticas e fantasmas que podem ser apenas uma desculpa. Vale a pena arriscarmos e atrevermo-nos. Vale a pena tentar ir atrás de um projeto, de uma ambição ou de uma nova vida. Se correr menos bem, acrescentamos ferramentas ao nosso mundo interno. Se correr bem, orgulhamo-nos do nosso percurso e da nossa capacidade de dizer sim!

 

 

Maria Farinha

Psicóloga Clínica

Membro da OPP nº. 020805

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