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Conheces a nova religião que ameaça dominar o mundo?

Mesmo sem darmos por isso, há uma nova religião emergente que a cada momento conquista mais e mais seguidores e ameaça já tornar-se dominante. Contrariamente às religiões tradicionais que exigem que os seus seguidores as reconheçam conscientemente, se identifiquem com os seus princípios e adotem um conjunto de práticas e rituais que consagram a sua afiliação, a nova religião é seguida mesmo por aqueles que desconhecem a sua existência.

Então como podem professar uma religião que não conhecem? É simples, basta interiorizarem um conjunto de crenças subliminares e colocarem-nas em prática no seu dia-a-dia.

Queres saber se já foste cooptada por esta nova religião? Então responde às seguintes questões:

Vais almoçar com os teus amigos a um restaurante da moda e servem-te um prato magnífico, de fazer inveja a qualquer chef de renome. O que fazes?

  1. Nem pensas duas vezes e «atacas» logo o petisco.
  2. Antes de começares a comer, tiras umas fotos ao prato e partilhas nas tuas redes sociais.

Vais fazer uma caminhada e observas paisagens de tirar a respiração. O que fazes?

  1. Aprecias as paisagens como um momento único, intransmissível e irrepetível, que é só teu.
  2. Tiras fotos e partilhas nas tuas redes sociais, para que todos os teus contactos conheçam o local que visitaste e as sensações que te despertou.

Estás a atravessar um momento difícil na tua vida que te causa bastante sofrimento. O que fazes?

  1. Sofres sozinha ou partilhas os teus sentimentos confidencialmente com amigos próximos, familiares e/ou terapeutas.
  2. Partilhas os teus sentimentos nas tuas redes sociais e debates a tua experiência com os teus seguidores.

Se seleccionaste a opção 2 pelo menos uma vez, significa que já te estás a converter; se a tua opção é sempre 2, então já és uma seguidora convicta do Dataísmo!

Mas o que é isso do dataísmo, afinal?

O dataísmo assume que os algoritmos bioquímicos não diferem significativamente dos algoritmos electrónicos, já que a ambos se aplicam as mesmas leis matemáticas. Com o progresso tecnológico galopante a que assistimos na atualidade, em breve os algoritmos eletrónicos serão capazes de superar o desempenho dos algoritmos bioquímicos.

Num futuro próximo, espera-se mesmo que surjam inteligências artificiais de tal forma sofisticadas que se tornarão autónomas na sua evolução e aprendizagem. Nesse momento, o ser humano tornar-se-á obsoleto, a não ser na medida em que continue a contribuir para alimentar o sistema de dados.

É uma ideia estapafúrdia ou nem por isso?

O Deus do dataísmo é a internet de todas as coisas, entendida como um sistema cósmico de processamento de dados omnipresente e omnisciente que abarca todo o universo. Neste contexto o valor supremo não é a experiência humana, mas sim o fluxo de informação.

Daqui resulta a crença de que tudo o que é bom, incluindo o crescimento económico, deriva da liberdade de informação. Note-se que não é a liberdade de expressão de cada ser humano, é a liberdade de livre circulação da própria informação.

Assim, o propósito do ser humano consiste simplesmente em ligar-se ao sistema e contribuir para propagar o fluxo de informação, tornando-se parte de algo grandioso que o ultrapassa. Ou seja, o valor do ser humano reside não nas suas experiências, mas na sua capacidade para converter essas experiências em informação partilhada que circula livremente na internet.

Desta forma, o destino do ser humano consiste em fundir-se com a internet de todas as coisas. Como tal, o código de conduta do fiel determina que se deve ligar a cada vez mais meios digitais e redes sociais, produzindo e consumindo cada vez mais dados.

Até que ponto associas o teu amor-próprio e valor pessoal às reações e comentários que tens nas tuas publicações?

Já consegues ver como as opções 2 te encaminham para o dataísmo?

Senão, qual é a razão que motiva as tuas partilhas? Já pensaste profundamente nisso, ou é algo que fazes mecanicamente, quase sem pensar, porque é algo que cada vez mais pessoas fazem e que se tornou a regra e a rotina de milhões de seres humanos?

Imaginas ainda a tua vida sem telemóvel, sem internet, sem redes sociais, sem a partilha de experiências para além daqueles que te são próximos?

Carregas informação na rede porque acreditas que ela é importante e relevante para as outras pessoas, ou porque o alcance das tuas experiências pessoais nas redes sociais contribui para o teu propósito? 

Dá que pensar, não dá?

Já imaginaste a quantidade astronómica de informação que consomes todos os dias? Sabes distinguir a qualidade e relevância da informação que consomes para aumentares o teu nível de conhecimento sobre o mundo que te rodeia e tomares decisões informadas sobre questões importantes? Ou estas preocupações são agora irrelevantes e tudo pode e deve ser partilhado e processado, desde o que comeste ao jantar até ao último livro que leste?   

Não é fácil responder a estas questões. Termino este artigo sem conclusões definitivas e com muitas questões em aberto. Sobretudo, não resisto a partilhar uma constatação do livro que me inspirou a escrever estas palavras:

Nos dias de hoje, ter poder equivale a saber aquilo que devemos ignorar, pois se no passado a censura passava pela negação do acesso à informação, hoje ela funciona através do excesso de informações irrelevantes em circulação.

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

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