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Vozes do Empreendedorismo Feminino: um espaço de pertença

Nos dias 14 e 15 de maio, o Templo da Poesia, em Oeiras, recebeu mais uma edição da conferência As Vozes do Empreendedorismo Feminino, organizada com o apoio do Município de Oeiras. Durante dois dias, mais de uma centena de empreendedoras (e também empreendedores!) reuniram-se para conversar, refletir, aprender, criar ligações e, acima de tudo, reafirmar uma determinada visão do empreendedorismo: mais humana, mais sustentável e mais alinhada com a vida real.

Esta conferência nasceu em 2018, ainda nos primeiros tempos da nossa comunidade. Surgiu da necessidade de dar voz a um empreendedorismo feminino frequentemente invisibilizado pelos discursos dominantes sobre sucesso empresarial. Um empreendedorismo feito de mulheres reais, com vidas reais, que constroem os seus negócios ao mesmo tempo que cuidam de filhos, famílias, casas, relações e de si próprias, quando conseguem encontrar tempo para isso.

Falamos de mulheres que não sonham necessariamente com unicórnios, rondas milionárias de investimento ou escaladas agressivas de crescimento. Mulheres cujas ambições passam, muitas vezes, por algo aparentemente mais simples, mas profundamente transformador: criar negócios financeiramente sustentáveis que lhes permitam viver com dignidade, ter desafogo financeiro e autonomia, enquanto fazem algo que respeita a sua essência, as realiza profissionalmente e deixa um impacto positivo no mundo.

Querem poder decidir onde, quando e como trabalham. Querem construir uma vida compatível com os seus valores e responsabilidades. E isso, num mundo que glorifica a produtividade incessante, a competição extrema e a disponibilidade permanente, continua a ser profundamente contra-corrente.

Este posicionamento distancia-nos inevitavelmente do mainstream das startups e dos modelos empresariais da moda. Obriga-nos a olhar para questões menos glamorosas, menos “sexies”, mas absolutamente centrais para quem empreende sem redes de segurança nem equipas gigantes por trás: o medo do fracasso, a solidão de começar do zero, a precariedade, a dificuldade em conciliar trabalho e família, o cansaço, a insegurança financeira, a necessidade constante de adaptação.

Nas Mulheres à Obra, nunca quisemos romantizar o empreendedorismo. Sabemos que, para muitas mulheres, criar o próprio negócio nasce tanto de um sonho como de uma necessidade. Sabemos que o autoemprego pode representar liberdade, mas também vulnerabilidade. E sabemos que o verdadeiro empoderamento feminino exige muito mais do que frases inspiracionais; exige redes de apoio, cooperação, reconhecimento e transformação social.

Foi precisamente esse espírito que procurámos materializar nesta edição da conferência. Mais do que um evento, quisemos criar um espaço onde todas as empreendedoras se sentissem em casa. Um espaço acolhedor, seguro e humano, onde cada pessoa pudesse sentir-se ouvida, respeitada e valorizada, independentemente da dimensão do seu negócio ou do estádio em que se encontra.

E talvez este tenha sido o ano em que mais conseguimos honrar essa essência.

Entre palestras inspiradoras que nos desafiaram a crescer pessoal e profissionalmente, momentos de reflexão sobre os desafios sociais e políticos que enfrentamos enquanto coletivo, presenças institucionais importantes, debates vivos e conversas profundas, houve também espaço para aquilo que tantas vezes falta no quotidiano acelerado do empreendedorismo: tempo. Tempo para conversar sem pressa. Para criar ligações genuínas. Para pedir ajuda. Para partilhar dúvidas. Para celebrar conquistas. Para perceber que não estamos sozinhas.

Porque a verdade é que empreender pode ser um caminho extremamente solitário. E num mundo cada vez mais competitivo, acelerado e frequentemente hostil, afirmar valores como a cooperação, a empatia, a entreajuda e a sustentabilidade humana tornou-se quase um ato de resistência.

As Mulheres à Obra nasceram precisamente dessa convicção: a de que é possível construir uma outra cultura empreendedora. Uma cultura onde o sucesso não se mede apenas em faturação ou crescimento exponencial, mas também em liberdade, dignidade, impacto social, saúde mental, equilíbrio e sentido de comunidade. Uma cultura que reconhece que ninguém cresce verdadeiramente sozinho.

As Vozes do Empreendedorismo Feminino continuam, por isso, a ser muito mais do que uma conferência. São um espaço de afirmação coletiva. Um lembrete de que existem muitas formas legítimas de empreender, de liderar e de construir uma vida profissional com significado.

E enquanto houver mulheres a procurar caminhos mais humanos, mais livres e mais sustentáveis para trabalhar e viver, continuaremos a dar-lhes voz.

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