Home Artigos Vida Aprender a olhar: uma leitura de Sobre a Morte e Morrer

Aprender a olhar: uma leitura de Sobre a Morte e Morrer

Clube de Leitura «Inspirar à Ação»
Com a curadoria de Analita Alves dos Santos e Cláudia Passarinho

Temos milhares de palavras no dicionário, nenhuma nos prepara para a morte.

É com essa consciência, a de que a linguagem falha quando mais precisamos dela, que se abre esta resenha. Curiosamente, é também a partir dessa insuficiência que Elisabeth Kübler-Ross começa o seu livro mais importante. Em vez de observar a morte com distância clínica, faz uma pergunta simples e perturbadora: e se aprendêssemos com quem está a vivê-la?

Foi o que a psiquiatra suíça fez. Ao longo de anos, sentou-se ao lado de mais de duzentos pacientes terminais e ouviu-os falar sobre o medo, a raiva, as tentativas de negociação com Deus ou com o Universo, a depressão que chega quando já não há mais argumentos e, por vezes, a aceitação serena que surge no fim.

Desse trabalho, nasceram as cinco fases do luto que hoje tantas pessoas conhecem, mesmo quem nunca leu o livro: negação, ira, negociação, depressão e aceitação. Reduzir a obra a este modelo é empobrecê-la. Estas fases não formam uma escada ordenada, revelam antes um território instável, mais evidente nuns doentes do que noutros, que confirma como morrer, tal como viver, resiste a qualquer esquema.

Há uma crítica que percorre o livro: tornámos a morte solitária, técnica, fria e desumana. Num tempo em que a medicina prolonga a vida e adia o fim, criou-se a ilusão perigosa de que a morte é um problema por resolver, até evitável? Os doentes deixaram, muitas vezes, de ter opinião ou direitos. Hoje, morre-se rodeado de aparelhos, por vezes sem uma mão por perto. Kübler-Ross não condena a ciência, questiona a indiferença que se instalou à beira do leito.

Ao ler estas páginas, vêm à memória as palavras de Alberto Caeiro: a realidade não precisa de mim. Há uma liberdade estranha nessa ideia: o mundo continua, as flores florescem e a nossa morte não altera o curso de nada. Kübler-Ross não chega tão longe na resignação poética, mas aponta numa direção próxima: a aceitação não é rendição, mas o reconhecimento de que a vida teve um tempo e de que esse tempo foi real.

O maior ensinamento deste livro é simples e avassalador: não podemos aprender a morrer sem aprendermos a olhar para a morte. A ignorância não nos protege, pelo contrário, o excesso de controlo pode tornar-nos mais frágeis. Os médicos, escreve a autora, têm um papel decisivo, porque a humanização do ato clínico pode fazer a diferença entre um fim vivido com dignidade e um fim apenas administrado.

Sobre a Morte e Morrer não é um manual, é um convite a sentarmo-nos ao lado de quem está a partir e a perceber que, nesse ato de presença, algo de essencial sobre a vida se revela.

Haverá uma certa poesia nessa efemeridade? As palavras de Kübler-Ross tocam-nos com a força particular das coisas que já vimos acontecer diante de nós.

Quando vier a primavera, 
Se eu já estiver morto, 
As flores florirão da mesma maneira 
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada. 
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme 
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria 
E a primavera era depois de amanhã, 
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. 
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? 
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; 
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. 
Por isso, se morrer agora, morro contente, 
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. 
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. 
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. 
O que for, quando for, é que será o que é.

 CAEIRO, Alberto, Poesia (Poemas Inconjuntos), ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001, p. 109

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Próximo encontro: sexta-feira, 17 de julho, 19h00

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