Home Artigos Empreendedorismo Shadow Ban da Alma: quando o algoritmo explora a insuficiência

Shadow Ban da Alma: quando o algoritmo explora a insuficiência

Se o Complexo de Impostora diz «não devias ocupar este lugar», o seu funcionário mais eficiente diz «não importa quanto e quão bem faças as coisas, continuas a não ter direito de estar onde estás, de fazer o que fazes, de ser quem és».

Se sentes isto, qual é a emoção que está na base? Vergonha? Culpa? Não-pertença?

O Complexo de Insuficiência opera na bolsa de valores psíquicos com as ações do “Pacto de Invisibilidade”, firmado pela criança que fomos quando fizemos aquele desenho, o mostrámos à mãe e ela nos ignorou. Ou quando, já adolescentes, mesmo com 20 valores, não tínhamos feito mais do que a nossa obrigação.

Funcionar na vida a partir destas marcas leva a mulher empreendedora de hoje a querer sempre fazer mais um curso, a cobrar poucochinho pelo seu serviço ou produto, a atender clientes fora de horas. Não porque ama o conhecimento, porque é muito generosa ou porque está sempre disponível.

Não. Faz mais um curso porque acha que não está suficientemente preparada. Cobra barato porque acha que a sua experiência não é suficiente. Está ao telefone às 22h com clientes porque tem medo que eles se vão embora.

Tudo isto são compensações de um ego preso àquela criança que teve de se adaptar à realidade desta forma, digamos assim, hiperdedicada.

Imagina: uma miúda que até gostava de estudar, mas isso não era valorizado na sua família, pode entregar-se à tirania do doutoramento em busca de uma validação que nunca chega — nem nunca vai chegar.

Já a rapariga que até se achava jeitosa, mas que não foi elogiada por quem era importante para ela, pode vir a pagar rios de dinheiro em procedimentos estéticos à espera de ser vista.

E a menina que tinha mil ideias criativas, mas que ouvia que era tudo uma parvoíce? Talvez venha a procurar aprovação a fazer dancinhas ─ estas, sim, parvas ─ para seguidores emburrecidos por um algoritmo cruel.

E, já agora que falo em algoritmo, mudei o texto deste mês à última da hora, porque não podia deixar de referir o recente banimento que o Facebook fez — sem direito ao contraditório — a um grupo de quase 200 mil mulheres.

Não é a primeira vez que a Meta desativa, de um dia para o outro, uma comunidade altamente cooperativa só porque Sua Majestade, o Algoritmo, assim o decidiu.

Nos últimos anos, as redes sociais tornaram-se um canal — creio que irreversível — de descarga e compensação das nossas inferioridades, das nossas insuficiências.

Para algumas empreendedoras, as que conseguiram subverter a perversidade da plataforma e transformá-la numa ferramenta de trabalho e difusão da criatividade, isso até pode ser lucrativo.

Já para outras, que têm um negócio excessivamente dependente das redes sociais, ficam reféns de uma entidade que, a qualquer momento, pode decidir fechar as portas do seu negócio, sem aviso prévio, porque “violou as regras da comunidade” (sabe-se lá o que isso quer dizer).

Por isso, é urgente termos consciência de quanto custa — a nível financeiro, logístico, ético e emocional — ter um negócio demasiado dependente das redes sociais, sobretudo das da Meta, e quais são as alternativas possíveis.

Talvez seja um bom começo tentarmos recordar como é que fazíamos negócios com inteligência humana (já que, com a sua burrice correspondente, sabemos lidar… hahaha).

Podem perguntar-se o que é que isto tem a ver com o Complexo de Insuficiência — e eu digo-vos: tudo! E explico porquê.

Se a inferioridade que existe em mim encontra na plataforma um meio de descarga ou compensação do que me incomoda, a tendência do meu ego é ficar ali, quietinho, para não ter de lidar com o desconforto de não ser visto em todo o esplendor que acredita ter.

E não é que não exista valor no trabalho que fazemos, nem que não o possamos divulgar. Mas pensa comigo na metáfora de um mercado “gratuito”:

Se, para vender o peixe, gastamos mais energia com a feira do que com a pesca, acabamos distraídas do nosso core business, com a falsa sensação de que estamos a trabalhar imenso. Só que o dono desse mercado lucra com a atenção das pessoas que por lá circulam, e não com as vendas dos produtores. E só mostra ao público quem vende peixe quando pagamos para que ele o faça.

Portanto, o que ele quer é que passemos tempo a arrumar o stand, a ver o que os outros mercadores fazem, a conversar com quem ali está a fazer nada. Assim, negligenciamos o barco, a rede, o isco, as marés — e ficamos à espera de que o dinheiro venha ter connosco. E mais: se a nossa pesca for mais apelativa do que a feira, talvez as pessoas queiram ir pescar por conta própria… e o dono do mercado, então, aplica-nos um shadow ban.

Nesta feira das vaidades, a fome do algoritmo casa na perfeição com a fome da insuficiência: “vou fazer mais um post, mais um story, vou entrar em polémicas nestes comentários, vou enviar 800 reels aos meus amigos, porque quero desesperadamente ser vista, ouvida, validada… seja pelo elogio, seja pela crítica”.

E, nestes tempos de economia da atenção, há MUITA engenharia social minuciosa do comportamento dos utilizadores para nos manter presas às redes — que capitalizam em cima do Complexo de Insuficiência da mulher empreendedora que nunca larga o telemóvel.

Se tu queres explorar este e outros temas que te angustiam por aí, vem ter comigo.

Um abraço forte,

Renata Netto do Nascimento

Analista Junguiana e Professora de Humanidades

Whatsapp +351 932 443 316

http://renatanettodonascimento.com

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