Home Artigos Vida Na minha vida falto eu: o regresso a si mesma em três atos

Na minha vida falto eu: o regresso a si mesma em três atos

Clube de leitura «Inspirar à Ação», o clube de leitura das Mulheres à Obra

Com a curadoria de Analita Santos e Cláudia Passarinho

Natália de Barbaro escreve como quem conduz uma sessão de coaching, não como quem redige um tratado. A coach e formadora polaca, criadora do programa «Espaço Próprio», constrói um ensaio confessional sobre a perda de identidade feminina, apoiado em experiências profissionais, leituras da psicologia junguiana e referências literárias e cinematográficas. Não procura a distância de um texto clínico, parte de histórias e imagens recolhidas ao longo de anos de trabalho com mulheres e devolve-as à leitora sob a forma de um reflexo.

A espinha dorsal: três personagens interiores

O livro organiza-se em torno de três arquétipos, a Submissa, a Rainha das Neves e a Mártir, apresentados na primeira parte. Natália de Barbaro sublinha desde o início o caráter simbólico destas figuras: recorrências no sentido que Jung deu à palavra arquétipo, não rótulos clínicos.

A Submissa organiza a vida a partir de um «deve-se fazer assim» impessoal. É a mulher que pergunta se alguém quer mais salada só para desviar uma conversa que receia ver transformar-se em discussão. Para descrever este padrão, a autora recorre ao conceito de distância do poder, de Geert Hofstede, ao guião de vida de Eric Berne e ao trabalho emocional de Arlie Hochschild: a gestão consciente das próprias emoções para corresponder ao que os outros esperam, mesmo quando isso exige esconder raiva ou cansaço.

A Rainha das Neves surge como o oposto aparente. Comanda e atinge objetivos à custa de congelar o coração e perder contacto com a própria vulnerabilidade. Tanto pode ser a chefe implacável como a mãe que transforma o filho num projeto. A base teórica deste capítulo vem de Marion Woodman e de Addiction to Perfection, além da distinção junguiana entre energia feminina e energia masculina.

A Mártir entrega-se aos outros, filhos, parceiro, trabalho, sem que ninguém lho tenha pedido, e acaba por cobrar esse sacrifício através da culpa. Barbaro chama-lhe violência passiva: um desrespeito pelos limites do outro disfarçado de cuidado. Para explicar o mecanismo, recorre ao triângulo dramático de Stephen Karpman, Vítima, Perseguidor e Salvador, desenvolvido a partir da Análise Transacional de Berne.

O capítulo «Um Jogo Viciado» mostra como as três figuras se alimentam. A Submissa nutre a Rainha das Neves. A Mártir pode surgir como reação a esta última. A mesma mulher reconhece-se nas três, em fases ou circunstâncias diferentes da vida. É um dos pontos fortes do livro: os arquétipos não surgem como identidades fixas, mas como padrões que se ativam em determinados contextos.

O vácuo e o caminho de volta

A segunda parte, «Uma Mulher Presa em Vácuo», é a mais longa e a mais pessoal. Parte de uma imagem física forte, a mulher selada a vácuo, incapaz de respirar, para colocar uma pergunta simples e difícil: quem somos para além dos papéis que desempenhamos?

A estrutura faz-se de pequenas mensagens, «Está tudo como devia ser», «Não estás sozinha», cada uma ligada a uma história. Barbaro defende que a perda de identidade raramente acontece de uma só vez. Acumula-se em pequenas cedências. A resposta que propõe passa pelo regresso à criança que fomos antes de aprendermos a agradar aos outros e pela recuperação de uma relação mais próxima com aquilo que desejamos. A individuação junguiana sustenta esta parte do percurso, cruzada com referências literárias, entre elas o poema «Assombro», de Wisława Szymborska.

A terceira parte acompanha a transformação destas figuras interiores através do contacto com a Bebé Interior e com a Menina Selvagem. O movimento é de regresso a uma identidade menos condicionada pelas expectativas acumuladas ao longo da vida.

Um dos méritos do livro está na capacidade de dar nome a experiências difíceis de identificar. Muitas leitoras reconhecerão a Submissa que evita o confronto ou a Rainha das Neves que não sabe parar.

Convém, porém, situar as fontes escolhidas pela autora. A linguagem dos arquétipos e das energias femininas e masculinas pertence a uma tradição específica da psicologia, a junguiana. Há outras formas de interpretar os mesmos comportamentos.

A psicologia social ajuda, por exemplo, a compreender a tendência para ceder perante expectativas externas. Os estudos de Solomon Asch sobre conformidade e de Stanley Milgram sobre obediência mostraram até que ponto o comportamento pode ser condicionado pela pressão de um grupo ou de uma figura de autoridade. Esta perspetiva alarga a leitura da Submissa para além do género.

A Rainha das Neves também pode ser lida a partir de modelos de perfecionismo que distinguem a exigência dirigida a nós próprios, aos outros ou percebida como imposição social. O trabalho de Kristin Neff sobre autocompaixão aborda parte do mesmo problema sem recorrer à linguagem simbólica: o modo como lidamos com a falha, a vulnerabilidade e a exigência que colocamos sobre nós.

Com a Mártir, importa não confundir cuidado com anulação. Cuidar dos outros, abdicar por vezes do conforto pessoal ou assumir responsabilidades faz parte da vida relacional. A questão começa quando desaparecem a escolha, os limites ou a reciprocidade e o cuidado se transforma numa forma continuada de apagamento pessoal.

A pergunta que atravessa a segunda parte, quem sou eu para além dos papéis sociais?, também aparece noutras correntes da psicologia e da filosofia existencial, embora com outra linguagem e outros métodos.

Estas leituras não retiram valor ao livro. Ajudam a perceber a opção de Natália de Barbaro por uma linguagem simbólica, feita de imagens, histórias e figuras interiores.

No fim, «Na Minha Vida Falto Eu» deixa uma pergunta difícil de ignorar: quanto de nós ficou pelo caminho enquanto tentávamos corresponder ao que esperavam de nós?

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Próximo encontro: sexta-feira, 18 de setembro, 19h00

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