Vida Viajar pelo Tempo – a Verdadeira Riqueza de Uma Vida com Sentido Publicado em 31 de Março, 2025 A vida traz muitos ensinamentos, colocando-nos à prova diariamente. Na verdade, traz desafios que muitas vezes são para cairmos e nos levantarmos ou, talvez, para nos reposicionarmos perante nós mesmos e o outro. O que levaríamos dela se hoje tivéssemos de fazer uma sinopse da nossa vida em poucos momentos? Talvez seja muito difícil cada uma de nós parar agora mesmo para pensar o que dá e deu sentido à nossa existência até hoje. Mas será mesmo assim? Os últimos anos têm-me ensinado que, apesar das dificuldades, o mais importante na vida são as acções de compaixão, empatia e pensar através do outro ou com o outro, mas nunca por ele. Palavras difíceis, querendo com isto dizer que, sobretudo, deveríamos conseguir colocar-nos na situação do outro e hipoteticamente viver essas situações como se nelas estivéssemos, para haver entendimento. É nas situações-limite que vemos a essência das pessoas e é nas situações decisivas que o amor se apresenta. Até hoje, e revisitando o meu tempo, acredito que apenas o amor move montanhas, e esse, sim, leva tudo pela frente. De nada serve ter grandes posses ou bem-estar social se nos momentos cruciais da vida esses momentos não forem de amor, compaixão e partilha com aqueles que de nós precisam. Quando esses momentos cruciais chegam, aí, sim, o nosso caminho de vida revela-se. Pessoalmente, tive de passar por vários momentos de perda ao longo da vida, mas não esqueço quem deixou tudo nesses momentos para estar comigo. Essas são, para mim, as malas que levo desta viagem… O que damos? O que recebemos? Amamos de verdade o outro ou amamos aparentemente dentro do nosso conforto? Hoje, quero perguntar-vos quais são as vossas dificuldades. Quem e como as ultrapassam ou ultrapassaram? O que levariam numa viagem além-mundo se tivessem de revisitar a vossa vida. Eu digo-vos o que levaria: Levaria o amor que senti e sinto por seres que estão na minha alma guardados para sempre. São os momentos dourados, aqueles que me provocam tanta emoção que fico com lágrimas nos olhos só de os recordar. Levaria as minhas recordações de infância e adolescência passadas em Madrid. Madrid não era perfeita, os meus avós eram pessoas normais. Eram pessoas com um bom coração, um coração tão especial que, quando eu chegava a Madrid, tinha sempre en la nevera (no frigorífico) Trinaranjus de Limão ou Laranja, Coca-Colas, Fantas de Laranja ou Limão à minha espera. Tanta variedade de coisas que eu ficava azamboada. Para não falar das tabletes de chocolates Elgorriaga que a minha avó ia guardando numa cesta de madeira para mim ou do saco enorme de pinhões que me trazia quando vinha ver-nos a Portugal, e eu ficava a chorar na estação de Santa Apolónia porque os meus queridos abuelitos se iam embora. E assim eu ficava, ainda, quando tinha 18 anos e o meu avô, com 86, se despedia de mim naquela plataforma da estação de Atocha. Levaria o sorriso diário da minha mãe quando acorda e me vê. Deixaria os momentos de pura solidão destes cinco e largos anos, os momentos de ausência e esquecimento, porque, sem dúvida, a pandemia trouxe alterações nas nossas formas de estar. Como cultivar momentos de glória? Como restaurar o nosso mapa de vida? Como trazer memórias infinitas? Nisso creio que neste grupo de empreendedorismo somos inigualáveis. Diria quase invencíveis. Estás preparada para escutar como fazer a tua mala de vida, a tua maravilhosa mala de platina? Criar momentos de networking, mas um networking presencial Sim, sim, não se ofendam se ainda sou das antigas e acredito no dom «divino» da presença. Todas nós deveríamos estar presentes nas vidas daquelas pessoas que fazem o nosso dia-a-dia ser melhor. Não basta ou não o deveria, enviar ou receber um WhatsApp como bem ouvi este fim-de-semana quando muitas de nós estiveram juntas. Um telefonema ou uma visita a alguém pode fazer a diferença entre um dia cinzento e um dia laranja, e lá volto eu às cores, como noutro artigo anterior. Criar momentos simples juntos dos seres que amamos O bem-estar diário. Que tal fazermos as torradas como a avó fazia? Plantarmos uma flor num vaso, fazer uma oração pelos nossos seres queridos? Tomar um expresso no café da moda ou escrever um bilhete com essas palavras que teimam em sair para o papel, dedicado aos nossos filhos, amores, irmãos, netos ou amigos? Palavras a não perder. Ter a capacidade de reconhecer um momento especial quando ele assim se manifesta Estamos atentos ou adormecidos? Quantas vezes o tocar da campainha pode trazer um amigo a subir pela escada, uma encomenda do outro lado do mundo de alguém de quem não sabemos há muito ou simplesmente um ramo de flores porque foi o teu aniversário. Ter a capacidade de reconhecer um momento especial quando ele assim se manifesta Sim, sim é repetido. Intencionalmente. Consegues sentir e percepcionar uma imagem, uma palavra, uma escrita, um momento de viagem ou de vida que fica para sempre? Posso dizer-vos que um Mimo a perseguir a minha mãe na Piazza Navona, o abraço dum amigo que sabemos que não vamos ver durante anos, um quadro num museu específico — no meu caso, um Pollock —, uma camisa de seda que brilhava para nós numa loja diferente, ou a fotografia dum bebé que nos é querido, podem ser incomensuráveis. Até uma simples pedra apanhada numa praia magnífica que visitámos. Consegues sentir quando esse momento é mágico? Consegues percepcioná-lo efetivamente com os diferentes sentidos? Levo tantos momentos destes na minha mala…. Um deles até deu origem ao meu Atelier «As Salas do Nautilus»… Ter a capacidade de fotografar na nossa mente um local, um cheiro, um sabor, um som, um toque. No fundo, o que os nossos sentidos registam na nossa mente Existe um local em Madrid pelo qual não voltarei a passar. Recuso-me a perder muitas memórias felizes para um local provavelmente despersonalizado por uma loja de conveniência, ou prédios novos com grafittis e ver locais com alma darem lugar a locais sem alma. Recordo esse parque de atracões onde ia com o meu pai andar nos carrinhos de choque ou à casa-fantasma. Fica o cheiro das sardinhas assadas de lá ou os passos das varinas por Alfama. É tão belo quando momentos inusitados nos trazem de volta esses momentos. Por vezes, cheiros trazem-nos comidas, por vezes, comidas trazem-nos conversas, por vezes, conversas trazem-nos pessoas. São viagens interestelares. Space Oddity, como o Bowie cantaria — uma voz que levarei sempre na minha mala. Hoje, quero que desfrutes dos teus sentidos, esforça-te. São essas memórias que vão fazer-te companhia em momentos gelados. E quando tiveres alguém teu próximo que precisa de ajuda, dá-lhe a mão. Tantas vezes o sofrimento traz tanto silêncio. E o silêncio tanto sofrimento. Viver momentos mágicos para criar outros momentos mágicos em cadeia No último evento As Vozes do Empreendedorismo Feminino, fiquei maravilhada com as pessoas que perderam o medo de caminhar sobre o vidro. Fiquei enternecida com relatos de luta e superação, de partilhas de autocuidado, de generosidades de vários tipos e pude ver como mulheres unidas com um propósito em comum ganharam asas para voos novos, a isso chamo criar outros momentos mágicos em cadeia. Sei que alguns desses momentos irão fazer parte das malas gorduchas de algumas de nós. A cor dessas malas não a sei, cabe-nos a nós pintar a nossa viagem com as cores que para nós fizerem mais sentido. O que certamente sei é que teremos viajado pelo tempo com outras vidas paralelas à nossa, com dignidade, amor, plenitude e sentido. Marisa Noblejas
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