Vida O que fazes para mudar o mundo? Publicado em 27 de Janeiro, 2025 A acusar bastante cansaço, depois de uma semana de muita atividade, dei por mim num dia de inverno muito triste e cinzento, sem vontade ou energia para dar andamento pelo menos a um dos muitos projetos que me proponho realizar. E está tudo certo. Já aprendi que há dias de produzir e outros em que o mais produtivo é dares-te tempo para repor forças, para que possas ser produtiva nos dias seguintes. E o que poderá haver de mais confortável num dia triste, cinzento e frio, do que fazer uma chá quente e enroscar-me na manta do sofá, com a companhia do meu sempre leal tricot? Dar um pouco de magia a um dia que nada parece ter de bom e transformar um simples fio num tecido intrincado, numa peça não só bonita mas também confortável. Depois, entre uma carreira e outra, é só procurarmos o tão necessário equilíbrio dos pensamentos bons…só que não. O dia, demasiado cinzento, trouxe-me outros pensamentos, mais inquietantes, mais pessimistas, das notícias que nos vão chegando de um mundo cada vez mais doente e sem sentido, com valores cada vez mais subvertidos. E fui passando pelas guerras, pela ânsia de poder e posse desmedida, seja à custa de quem for, de milhares de pessoas que sofrem e morrem, apenas porque alguém quer dominar pessoas e territórios e sobre eles exercer a seu bel prazer a sua vontade arbitrária. Porquê? Quão perdidas e distorcidas andam estas cabeças, para se esquecerem do valor da vida humana e lhe sobreporem o seu desejo ilimitado de possuir, sem nunca se contentarem, cada vez mais coisas das quais, pela sua quantidade, nem sequer conseguem usufruir. Ou atingir felicidade. O que vai na cabeça de alguém que não dignifica o cargo que ocupa e conspurca o que deveria ser uma missão nobre, roubando a outros aquilo de que nem sequer necessita? Porque é que é Ter se tornou mais válido do que Ser? Porque é que estamos a perder a nosso humanismo, a nossa empatia? E vem aquela vontade de mudar o mundo. E logo também o sentimento da nossa impotência perante tudo isto, a consciência de sermos demasiado pequenos para o fazermos, a perceção da nossa incapacidade para o conseguir. Talvez pela (muito boa) influência do Tricot, e apesar da chuva cair insistentemente lá fora, procurei que ideias mais positivas e mais esperançosas me devolvessem um bocadinho de consolo. E aí lembrei-me que não é bem assim. Temos a tendência natural, perante um mundo tão doente, de achar que só grandes ações, com a ajuda de muito poder e de muito dinheiro, poderiam consertar alguma coisa. Mas não. Tal como uma viagem de muitos quilómetros não se faz com um só salto, mas se começa com um simples passo, também a mudança do mundo pode estar nas pequenas ações que realizamos todos os dias. Um simples sorriso e um “Bom dia!” pode transformar o dia da pessoa que encontras à tua frente na caixa do supermercado, ou na paragem do autocarro. Um olhar mais tolerante para uma atitude menos boa de alguém, pode vislumbrar que foi gerada por um mau momento que esteja a atravessar. Posso não conseguir acabar com as guerras no mundo, mas posso mudar muita coisa desde o meu quintal até ao fundo da minha rua, até ao limite do meu bairro (e mais…) e isso pode gerar um movimento contagiante, tal como a violência o é, mas aqui de uma forma positiva. E está na nossa mão. E ainda por cima traz um retorno de muita felicidade e sentimento de que nem tudo está perdido, que as coisas podem ser boas e certas. Voltando ao Tricot, que é para mim um tema de eleição: como a minha vocação sempre foi ensinar, um dia assim do nada, decidi que ia dar aulas de Tricot, para poder dar a conhecer os benefícios da sua prática. E isto foi uma ação mais ou menos pequenina. Depois percebi que muitas pessoas precisavam de aprender da forma certa para se orgulharem do que faziam. Então comecei a escolher as aprendizagens que promover a Autonomia dos alunos. Depois percebi que havia muita gente apaixonada por Tricot e com vontade de ganhar dinheiro com as suas peças mas que tinham 2 problemas: não sabiam como estruturar um negócio e o pior de tudo: o desconhecimento sobre as vantagens e diferencial de uma peça ticotada à mão fazem com que se comparem estas peças com outras de baixo preço e de baixa qualidade. Então fundei o Instituto Português do Tricot e com ele o Movimento de Valorização do Tricot em Portugal. No início era apenas eu e uma marca. Mas hoje é um movimento. Passo a passo vai sendo construído. Mais pessoas se juntaram a mim e hoje estamos no processo de transformação numa Associação sem fins lucrativos e já com vários projetos em curso. Temos a decorrer a Campanha “Tricotar com o coração”, que consiste em juntar muitas pessoas a tricotar peças para bebé, para doarmos essas peças ao Banco do Bebé, que tem um trabalho muito meritório ao ajudar muitas famílias desfavorecidas a ter mais condições e conforto para os seus bebés. E gostávamos muito que te juntasses a nós. Pois é. Está na nossa mão. Com um passo de cada vez, ainda que da nossa dimensão, vamos mudar o mundo. E terá valido a pena sempre que com uma ação nossa, ainda que pequena, tornarmos melhor o dia de alguém. Manuela Carrondo
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