Vida Quanto pagas pelo teu tempo? Publicado em 25 de Novembro, 2024 O que mais vemos, nos dias de hoje, são pessoas a correr de um lado para o outro, sem terem tempo para nada. É o trabalho, a escola dos filhos, as atividades, as idas ao supermercado, a casa, as compras… E as semanas vão-se sucedendo, as férias do verão passam a correr, depois vem a azáfama do regresso à escola e quando reparamos já estamos no Natal. Damos por nós a ter mais 10 anos do que a última vez que pensamos nisso e dizemos que a vida passa muito depressa. Mas, na verdade, não paramos para pensar para onde estamos a correr nem porquê. Que valor estamos a dar ao nosso tempo? Estamos a trocá-lo por quê? Talvez esteja na hora de desacelerar. Porque o que existe no fim do nosso tempo é o fim da nossa vida, que é tudo onde não queremos chegar. Esquecemo-nos que o nosso tesouro é o que fazemos pelo caminho, é o que fazemos com o nosso tempo. Nas nossas vidas apressadas, quantas vezes trocamos o tempo, o nosso bem mais precioso, por dinheiro e muitas vezes por roupas de que não necessitamos e objetos que nada nos acrescentam? O dinheiro é um dos meios mais eficazes para adquirirmos as coisas que nos podem suprir as necessidades básicas, proporcionar-nos conforto, formação e muitas experiências de vida. Não faz, por isso, qualquer sentido dizermos que o dinheiro é a fonte de todo mal, não o é. Se o encararmos como um meio para obtermos o que nos pode fazer felizes, em vez de uma finalidade, o objetivo máximo pelo qual trocamos tudo, até a nossa felicidade. Às vezes temos que trocar o nosso tempo por dinheiro, sim. Quantas vezes optaríamos por fazer coisas mais agradáveis, mas vamos trabalhar, porque é necessário. Mas também acontece, mais frequentemente do que seria desejável, trocarmos o nosso tempo por coisas muito menos valiosas, pura e simplesmente porque não nos damos tempo para avaliar as nossas prioridades. Vou agora dar-te um exemplo, contando um bocadinho da minha própria história: Quando terminei o meu curso comecei a minha carreira no ensino e tinha já nessa altura dois bebés com menos de um ano. Custou-me horrores separar-me deles, porque era com eles que eu queria passar o meu tempo… mas a minha responsabilidade era criar uma estrutura de vida que me permitisse prover tudo o que fosse necessário, para eles e para mim. Foi uma escolha fácil e óbvia. Mas o tempo vai passando e nós vamo-nos habituando às nossas rotinas, esquecendo-nos até de perceber quando elas se tornam quase insuportáveis… Trinta e dois anos depois, o que fazia tinha para mim perdido todo o encanto. A minha vocação sempre foi ensinar e há muito que não me sentia a fazê-lo de uma forma eficaz e muito menos eficiente e isso, conjugado com outros fatores, foi debilitando muito a minha saúde, a minha alegria e o meu sentimento de propósito. E nem aí eu decidi fazer alguma coisa para mudar, porque o meu sentido de responsabilidade não mo permitia. Ainda faltavam bastantes anos para a reforma e, para além de a garantir, era preciso ganhar dinheiro. Não havia por isso alternativa, era continuar. Achava eu. Só que a vida às vezes tem melhores planos para nós do que nós próprios e uma forma criativa de nos apresentar caminhos óbvios, que não tínhamos ainda conseguido ver. Adoeci e, assim, a mudança foi uma inevitabilidade. E tudo o que parecia impossível se tornou possível. Porque, ao colocar as coisas em perspetiva, percebi que reavaliando as minhas prioridades e os meus valores, e fazendo as opções certas, não tinha que vender o meu tempo tão caro como estava a fazer até aí. Ao deixar o ensino, deixei de ter que morar em Lisboa, o que me possibilitou comprar uma casa muito melhor e muito mais barata, num sítio onde o tempo passa mais devagar, poque tudo fica mais perto. Agora oiço os passarinhos a cantar quando acordo, em vez do ruído do trânsito. Em vez de ter que entrar e sair de uma sala ao toque de uma campainha, organizo a minha agenda respeitando o meu equilíbrio e a parte do meu tempo que quero dedicar aos que precisam de mim. Nunca mais sofri ao domingo à tarde, quando se perspetivava mais uma semana de tarefas e horários desagradáveis. Até posso ter que trabalhar ao sábado e ao domingo, mas nunca tenho o desespero de mais uma segunda feira. Hoje ganho bastante menos dinheiro do que ganhava e nunca está garantido, como quando tinha um emprego “seguro”. Mas tenho mais do que suficiente para o que preciso. O restante, troquei-o por tempo. Faço o que gosto, em cada minuto do meu dia. Mesmo as tarefas menos agradáveis não pesam, porque são uma escolha minha e porque tenho sempre presente o meu porquê. Estas opções de vida permitiram-me um enorme crescimento pessoal, contactar com muitas pessoas que acrescentaram valor à minha vida e impactar positivamente a vida de muitas pessoas. Dediquei-me a uma das minhas paixões, o Tricot, e estou a colocá-lo de novo na lista das coisas importantes e com valor, tal como ele merece. Criei o Instituto Português do Tricot e ajudo pessoas a criar autonomia, a aperfeiçoar o seu desempenho, a criar propósito e até os seus próprios negócios. A usufruir dos benefícios do Tricot, que são inúmeros. Estou a construir o meu Legado, que me sobreviverá. Agora, com o Natal a chegar, vou ensinar pessoas a tricotar pela primeira vez, a fazerem decorações e presentes de Natal e a viverem o espírito com menos consumismo e mais amor, de forma muito mais sustentável. Eu própria vou fazer presentes de Natal em Tricot, através dos quais vou oferecer também bocadinhos do meu tempo, a dádiva mais valiosa e altruísta. Nos dias frios que se avizinham, vou fazer o meu chá, tapar-me com a mantinha do sofá e tricotar para as pessoas de quem gosto. Este tem sido o meu caminho, o teu pode ser outro qualquer, o que fizer sentido para ti. Mas não te esqueças de usar o teu tempo com parcimónia. Quando crescemos dizem-nos que devemos estudar, ter um bom emprego, uma casa, um carro, casar, ter filhos…e está tudo certo. Mas, na verdade, a única coisa que temos mesmo que fazer, acima de tudo, é que ser felizes e tornar feliz a vida de quem nos rodeia. Com tempo. Manuela Carrondo
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