Vida Quando tudo se desfaz: uma leitura sobre a impermanência e a lucidez Publicado em 5 de Janeiro, 2026 Clube de Leitura «Inspirar à Ação» Com a curadoria de Analita Alves dos Santos e Cláudia Passarinho Quando tudo se desfaz: uma leitura sobre a impermanência e a lucidez «Apenas num espaço aberto em que não estejamos todos aprisionados na nossa versão da realidade podemos ver, ouvir e sentir quem os outros são verdadeiramente, o que nos permite estar e comunicar com eles de um modo adequado.» Quando Tudo se Desfaz, de Pema Chödrön, é um livro que não promete conforto e é precisamente aí que reside a sua relevância. Este é um ensaio sobre o colapso, a impermanência e a coragem de permanecer quando já não há nada a que nos possamos agarrar. Pema Chödrön defende: «O caos deve ser encarado como uma muito boa notícia.» Com uma escrita despojada, compreensível através destes excertos «Na medida em que tenhamos compaixão por nós próprios, também teremos compaixão pelos outros.» ou «A essência da vida consiste no facto de ela ser um desafio.», Pema Chödrön recusa explicações reconfortantes: observa a dor, o medo e o desconforto como matérias vivas, para compreender por dentro e pelo qual devemos agradecer. Um dos conceitos centrais da obra é o reconhecimento do aprisionamento emocional, isto é, o instante em que a personagem toma consciência de que está presa a padrões afetivos que se repetem. Ao evidenciar esse instante, a autora oferece ao leitor um mapa da mente humana, no qual o desconforto deixa de ser obstáculo e passa a ser objeto de atenção. Neste caso, conhecer não endurece; amacia.” Embora muitas vezes catalogado como espiritual, Quando Tudo se Desfaz aproxima-se mais de um ensaio filosófico e intimista. A impermanência surge não como uma ideia abstrata, mas como lei física: tudo muda, tudo transita. A escrita lenta e pausada convida o leitor a desacelerar e aceitar. Este é um livro para quem não procura respostas rápidas, mas uma linguagem que ajude a aceitar a mutualidade das emoções. Para quem intui que parar, observar, e não preencher de imediato o vazio, pode ser transformador. Porque, como Pema Chödrön nos lembra, quando o lago está tranquilo, é possível ver tudo o que existe dentro dele. Até sermos lagos de águas calmas, devemos ser «exploradores». O medo é uma reação natural na aproximação à verdade, diz-nos a autora. O que mais apreciámos foi a possibilidade de analisar uma outra versão da dor, não como passível de esconder ou camuflar, mas como matéria de atenção. «Quando tudo se desfaz» explora o conceito que na gíria designaríamos por «tirar o tapete». Mas há algo que somente se revela nesta situação: desiste-se de lutar contra a dor ou a mudança não por resignação, mas por lucidez. Outra questão abordada é a dependência, enquanto seres pensantes, seja do que for que pareça atenuar o sofrimento (medicação, música, escrita, leitura, conversa…). Estas «distrações» são matérias que ajudam-nos a fugir da brutalidade do desconforto. Porém, segundo Pema, o desconforto deve ser dissecado como objeto de estudo. «Quando tudo se desfaz e nos sentimos entregues à incerteza, ao desapontamento, em estado de choque, envergonhados, o que resta é uma mente clara, fresca e sem preconceitos.» Na prática, reprimir a dor trespassa-nos, abre fendas; conhecer a dor amacia-nos, dissipando o desconforto e provando-nos que há coisas que não devem desaparecer. Se há algo que o livro nos deixa é isto: quando tudo se desfaz, ainda há uma forma de permanecer, não no que nos rodeia, mas na atenção com que olhamos o que nos está a absorver. «Viver completamente é estar sempre na terra-de-ninguém, experimentar cada momento como algo completamente novo e fresco. Viver é estar disposto a morrer vezes sem conta.» Próximo encontro: sexta-feira, 16 de janeiro, 19h00. Livro: O que Procuras Está na Biblioteca, de Michiko Aoyama Mais informações: O Prazer da Escrita
Supera_te: mulheres unidas contra a violência doméstica As Mulheres à Obra têm por propósito estimular o espírito de iniciativa e as …