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Meritocracia, cooperação e autoconhecimento

Reflexão sobre a Mulher na Liderança e no Empreendedorismo

Há alguns dias, num evento de networking, ouvi um homem afirmar com convicção que, na sua instituição, reinava a meritocracia. No entanto, acrescentou que, na direção, havia apenas uma mulher. Imaginem o meu espanto perante o desalinhamento deste discurso! Se a meritocracia é realmente o princípio que orienta as organizações, porque continuam as mulheres tão sub-representadas nos espaços de liderança?

A resposta não está na falta de capacidade, ambição ou mérito feminino. Está, isso sim, nos contextos sociais, culturais e emocionais que moldam o nosso quotidiano e nas múltiplas camadas de trabalho que recaem sobre nós enquanto mulheres. Pierre Bourdieu dizia: “o mundo social constrói o corpo como realidade sexuada e como depositário de princípios de visão e divisão.” Ou seja, a nossa participação na esfera pública está diretamente moldada por papéis historicamente atribuídos ao feminino.

Em muitos casos, a mulher que deseja crescer na carreira precisa de gerir simultaneamente: a vida profissional e familiar, a gestão emocional da casa e da relação, o cuidado dos filhos, dos pais e dos afetos e ainda as expetativas sociais em permanecer “arranjada”, “flexível” e “presente”.

Arlie Hochschild, socióloga, chamou a isto a “segunda jornada”, o trabalho invisível, emocional e doméstico que acontece após a jornada profissional.

Ora, se a mulher parte para o mercado com duas jornadas e o homem, na maioria das vezes, apenas enfrenta uma, como pode a competição meritocrática ser justa?

Falemos sobre a Ilusão da Meritocracia

A meritocracia defende que quem se dedica mais, conquista mais. Mas ignora que as pessoas não partem todas do mesmo ponto, nem têm o mesmo tempo disponível ou as mesmas responsabilidades emocionais e sociais.

Por isso, insistir que crescimento profissional depende apenas de esforço individual é perpetuar as desigualdades.

E o que acontece à mulher que tenta jogar este jogo?

Invariavelmente multiplica-se e excede-se à sua própria custa: ao trabalhar incessantemente para alcançar metas, credibilidade e autoridade; ao cuidar para manter a casa e a família como lhe ensinaram; ao gerir-se emocionalmente para manter tudo em equilíbrio.

Que, claro, culminam em stress, frustração, burnout e culpa. É este sentimento de insuficiência crónico, mesmo estando a fazer o impossível. Pergunto-me: será que exagerei? Pois, o mesmo sentimento que me leva a medir até as minhas próprias palavras escritas… na verdade, fomos ensinadas que uma menina bem-comportada não reclama e sorri…

Daí que os índices de ansiedade, depressão e exaustão emocional sejam significativamente mais altos nas mulheres. É este o verdadeiro impacto latente na sua saúde mental e emocional.

E este problema não é apenas de cada uma de nós e que vamos resolvendo conforme sabemos, é também um problema social e coletivo, porque na atual sociedade quando o bem-estar da mulher fica mais frágil, todo o sistema acompanha.

E é aqui que entra o Empreendedorismo Feminino

Muitas mulheres partem para o empreendedorismo bastante movidas pelo sonho da autonomia, acompanhado pela necessidade de criar horários mais flexíveis, espaço para uma maternidade consciente, ritmos e projetos alinhados com o seu propósito, em ambientes que reconheçam e abracem como valências, características que são designados por muitos como fragilidades.

O empreendedorismo torna-se um ato de libertação e reinvenção social, em que é imperativo o cuidado de não transportar a mesma lógica de produtividade, excesso e autoexigência para o negócio próprio, sob pena de retornar à prisão da qual quis sair.

A Verdadeira Mudança que precisamos

A transformação começa quando reconhecermos, para nós e para os outros, que a mulher não precisa de provar nada:

  • Valorizarmos a cooperação acima da competição;
  • Criarmos organizações que acolham o ciclo e não apenas o relógio;
  • Entendermos que o cuidado não é fragilidade, é conhecimento;
  • Percebermos que o sucesso tem outras medidas além dos resultados financeiros.

Dentro das empresas, são necessárias:

  • Políticas reais de equilíbrio vida-trabalho;
  • Liderança horizontal e participativa;
  • Espaços de escuta e partilha;
  • Modelos de trabalho flexíveis;
  • Equipas que atuem em complementaridade.

A cooperação não é apenas uma “ideia bonita”: ela reflete inovação, produtividade sustentável e saúde na própria organização.

No indivíduo é necessário Auto-Conhecimento, que permite:

  • Reconhecer limites e necessidades;
  • Entender onde se encontra na sua própria história;
  • Reescrever narrativas de insuficiência;
  • Recuperar o seu próprio lugar de poder interno;
  • Escolher sem culpa;
  • Criar a sua forma de viver e liderar.

Em suma, se quisermos realmente um futuro com mais mulheres em liderança, mais equilíbrio social e mais saúde emocional, precisamos de:

  • Mudar o discurso da meritocracia isolada para a cooperação consciente;
  • Criar espaços que acolham as realidades femininas, em vez de exigir que elas se tornem invisíveis;
  • Promover o autoconhecimento como ferramenta de libertação, não de correção.

Andreia Melo

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