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Bem-estar, desigualdade de género e o peso invisível do cuidado em Portugal

Os dados recentemente divulgados pela OECD, com base no Patient Reported Indicator Survey (PaRIS), voltam a confirmar uma realidade que muitas mulheres conhecem bem: entre pessoas com doenças crónicas, as mulheres reportam níveis de bem-estar significativamente mais baixos do que os homens e taxas mais elevadas de depressão moderada a severa.

Estes resultados não surgem por acaso, nem podem ser explicados apenas por fatores individuais ou biológicos. São o reflexo de desigualdades estruturais profundas, que atravessam o mercado de trabalho, a organização da vida familiar, o acesso ao tempo e aos recursos e que continuam a penalizar de forma desproporcionada as mulheres.

O trabalho não remunerado no centro da desigualdade

No cerne desta desigualdade está o trabalho não remunerado de apoio à família e de cuidados. Um trabalho essencial para o funcionamento da sociedade e da economia, mas que permanece largamente invisível, não reconhecido e desvalorizado.

Cuidar de crianças, de pessoas idosas, de familiares doentes, gerir o quotidiano doméstico e assegurar a estabilidade emocional das famílias continua a ser, em grande medida, responsabilidade das mulheres. Este trabalho não conta para o PIB, não é remunerado, raramente é considerado nas políticas económicas, mas tem custos muito reais para quem o assegura.

A sobrecarga física e mental associada a esta dupla ou tripla jornada tem impactos diretos no bem-estar, na saúde mental, na autonomia económica e nas trajetórias profissionais das mulheres.

Portugal: uma disparidade agravada por padrões culturais

Em Portugal, esta desigualdade assume contornos particularmente graves. O país apresenta uma das maiores disparidades entre mulheres e homens no que diz respeito ao trabalho não pago, fruto de padrões culturais profundamente enraizados que continuam a associar o cuidado e a esfera doméstica ao papel feminino.

Portugal na frente do pelotão da desigualdade de género, ao nível do bem-estar


Apesar dos avanços legais e das mudanças sociais das últimas décadas, a divisão do trabalho dentro das famílias permanece fortemente desigual. Mesmo quando estão inseridas no mercado de trabalho a tempo inteiro, são as mulheres que, em média, assumem a maior parte das responsabilidades familiares.

Esta realidade ajuda a explicar porque é que as mulheres em Portugal reportam piores níveis de saúde percebida e maiores níveis de stress e exaustão, sobretudo ao longo do ciclo de vida.

Normas de género que prejudicam todos

Os dados da OCDE mostram também outro lado do problema: os homens continuam a procurar menos ajuda para questões de saúde mental, o que conduz frequentemente a diagnósticos tardios e a situações de sofrimento não tratado.

Este fenómeno está igualmente ligado a normas de género rígidas, que desvalorizam a vulnerabilidade masculina e reforçam expectativas de autossuficiência e silêncio emocional. Ou seja, um sistema desigual que penaliza as mulheres de forma mais intensa, mas que acaba por afetar toda a sociedade.

Porque é que os dados são fundamentais

Dados como os agora divulgados são essenciais por várias razões. Em primeiro lugar, permitem tornar visível aquilo que muitas vezes é naturalizado ou invisibilizado no discurso público. Em segundo lugar, ajudam a compreender a verdadeira dimensão do problema e a identificar onde as desigualdades são mais intensas seja por género, país, condição socioeconómica ou fase da vida.

Sem dados desagregados e sem uma leitura crítica da realidade, continuamos a tratar sintomas isolados em vez de enfrentar as causas estruturais da desigualdade.

Reconhecer, redistribuir, transformar

Promover o bem-estar não é apenas uma questão de saúde. É uma questão económica, social e política. Implica reconhecer o valor do trabalho de cuidado, redistribuí-lo de forma mais justa entre mulheres, homens, Estado e mercado, e desenhar políticas públicas que coloquem a vida no centro.

Sem enfrentar a desigualdade no trabalho não remunerado, não haverá igualdade de género. E sem igualdade de género, não haverá verdadeiro bem-estar, nem economias sustentáveis, nem sociedades justas. Nas Mulheres à Obra continuamos a defender que a igualdade de género na economia começa precisamente aqui: no reconhecimento do trabalho invisível que sustenta tudo o resto.

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