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Empreendedorismo versus Autoemprego

Empreendedorismo

“És empreendedora ou criaste o teu próprio emprego?”

Muitas vezes nos colocam esta questão como se fossem duas coisas completamente diferentes, como se uma pessoa que cria o seu próprio emprego não pudesse ser empreendedora, pois o empreendedorismo é algo para as startups tecnológicas e afins. 

Na realidade podes ser ambas as coisas, pois tradicionalmente o autoemprego tem sido associado ao pequeno e micro empreendedorismo. Embora nem sempre se fale nisso, é um caminho profissional exigente e desafiador que se debate entre duas forças opostas: a liberdade e a insegurança.

Vamos ver porquê.

Um pouco de história

Antes da revolução industrial o autoemprego era muito comum. Muitos indivíduos dedicavam-se à agricultura, ao comércio e à produção independente de bens e serviços. Por vezes toda a família participava no processo produtivo.

Tudo mudou com a evolução tecnológica propiciada pela revolução industrial, que favoreceu a produção em grande escala. Neste contexto, o trabalho por conta de outrem tornou-se a norma, enquanto o auto-emprego declinou consistentemente na maioria das economias avançadas.

No entanto, nas últimas décadas esta tendência inverteu-se e o auto-emprego/micro empreendedorismo voltou a crescer. As causas para esta nova tendência são variadas: o surgimento de novos modelos de trabalho; a descentralização organizacional com o crescimento do outsourcing; a redução de postos de trabalho em virtude da introdução de novas tecnologias; a perda de direitos laborais derivada da crise económica.

A ideologia do empreendedorismo

Sobretudo, afirma-se uma ideologia económica que defende a competitividade pela redução do custo do trabalho, o que implica que os trabalhadores sejam extremamente flexíveis, adaptáveis a novas exigências laborais e capazes de gerar o seu próprio rendimento de forma rápida e eficiente, para não dependerem de subsídios nem de outros apoios sociais.

Aqui surge toda uma “indústria” de prémios, programas, apoios, eventos, formações e supostas oportunidades que visam estimular o empreendedorismo e apresentar o autoemprego como uma alternativa válida para quem procura um novo desafio profissional.

Infelizmente, é dada pouca atenção aos potenciais riscos que podem surgir quando se cria um negócio com pouco investimento inicial, como os rendimentos reduzidos e inseguros, a perda de direitos sociais e a dificuldade em fazer face a todas as exigências do negócio com competências limitadas.

Prevenir para não remediar

Estamos portanto perante uma nova realidade laboral que nos coloca grandes desafios e levanta questões urgentes:

  1. Até que ponto são os os micro-empreendedores auto-suficientes e os seus negócios sustentáveis?
  2. Quais os direitos sociais do micro-empreendedores e qual o impacto do crescimento deste tipo de trabalho nos sistemas de proteção social?
  3. Quem representa os interesses dos micro-empreendedores junto das entidades públicas e como participam na tomada de decisões políticas que os afetam?
  4. Quais os desafios específicos que se colocam às mulheres empreendedoras e qual o seu impacto ao nível da desigualdade de género na economia?

As respostas não são óbvias e exigem muita pesquisa e debate, mas é um caminho que vale a pena percorrer. Se procurarmos descobrir a resposta a estas questões e refletirmos seriamente sobre elas, podemos tomar decisões informadas e preparar planos de contingência para eventuais dificuldades que possam surgir na gestão dos nossos negócios.

Temos por isso que ser muito cautelosas e não embarcar facilmente em crenças e ideologias que têm pouca adesão à realidade e nos podem empurrar para as areias movediças da precariedade laboral.

Imagem de Werner Heiber por Pixabay

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