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De que Rapunzel precisa para sair da torre

“Quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem.”

Rosa Luxemburgo (filósofa polaco-alemã)

Num dia destes, estava eu a estudar tarot e deparei-me com a carta da Torre (o arcano n.º XVI). Imediatamente, lembrei do conto infantil da Rapunzel e associei as duas metáforas.

Estórias poderosas que ultrapassam o bloqueio crítico e racional da consciência, as metáforas permitem-nos aceder a significados aos quais talvez não chegássemos apenas pela cadeia discursiva, a menos que tivéssemos o apoio de uma escuta e de uma devolutiva qualificadas.

Aqui nesse texto, eu não consigo escutar você que me lê nem interagir com os seus insights, mas podemos fazer disso um encontro ao final do qual possa ter em seu repertório interno algum material simbólico para re-sentir, re-interpretar e perlaborar[i] o conto infantil de Rapunzel ou até aquela experiência com a cartomante da sua vizinha…

Vamos?

O Mapa da Prisão

Pois bem. A combinação dos enredos d’A Torre[ii] e de Rapunzel[iii] nos sinaliza o poder que um sistema de crenças exerce sobre nós, condicionando-nos a visão à moldura de umas poucas janelas no alto da edificação.

Pensando na mãe-feiticeira da nossa donzela, precisamos de alguém que nos nutra e proteja do mundo enquanto somos bebés, senão estaríamos sujeitos à morte prematura. Entretanto, ao mesmo tempo em que essa entidade que nos cuida jamais nos abandona, eis que a introjetamos na forma dos tais sistemas de crenças, ela nos confina numa espécie de trincheira de asserções sobre a vida.

Por mais que esse aparato de certezas — nem sempre lógicas — seja o fio que tece todas as nossas estratégias de vida e de sobrevivência, transitar no mundo a partir de convicções tão inflexíveis e demasiado arraigadas pode também nos encarcerar.

Na iconografia do tarot clássico, a torre é atingida por um raio de sol que retira dela o telhado, fazendo penetrar a luz que expulsa os habitantes da obscuridade. Note que não se trata de expulsar a obscuridade dos habitantes, mas sim de arrancá-los de um certo lugar sombrio.

A simbologia evoca, ainda, a condição de habitantes e não de prisioneiros. Assim como Rapunzel, nós e eles, só nos apercebemos de que estamos presos, apenas quando da nossa janela (dos sonhos), começamos a enxergar campos de possibilidades além das grades do que até ontem, chamávamos de casa.

A Revolução de Eros

Rapunzel tenta negociar com a mãe uma progressão de regime fechado para semiaberto, com saídas pontuais para caminhar por entre as flores e as árvores e cantar com os passarinhos e toda aquela cena bucólica byroniana.

Todavia, ciente dos perigos fálicos lá de fora, a mãe reafirma a importância da proteção da torre e encerra o assunto, deixando a filha com aquela sensação amarga do infamiliar[iv] freudiano, de ser uma estrangeira no lugar onde cresceu e se formou.

Enquanto a cadeia física não sufocar a cadeia discursiva, isto é, enquanto esse sítio onde nos encontramos corresponder ao que acreditamos e dizemos desejar, pode ser que a vida esteja em normose[v]. Porém, quando o nosso verdadeiro desejo romper com esses discursos que adotamos e irromper com novos dizeres, com novos significantes e significados, o espaço se fará apertado.

Confuso, não é? Fica o convite para investigarem essas expressões todas. Mas o que quero dizer com elas é o seguinte:

Ainda que tenhamos tranças como as de Rapunzel para nos livrarmos das trancas do castelo, por vezes, precisamos de uma rebelião erótica, daquelas que mudam por completo o que dizemos sobre nós mesmas e que nos dão a coragem de pular no abismo desejante, (im)pulsionadas pela paixão avassaladora por um objeto, seja uma outra pessoa, um trabalho, uma viagem, uma ideia ou até mesmo um filho.

Nos intervalos da vigilância da mãe, Rapunzel recebe seu amado príncipe-caçador e entrelaça com ele não apenas o seu corpo, mas também os tecidos para confeccionar a escada através da qual pretende fugir da torre.

É na trégua do sistema de crenças que ela ganha algum fôlego e articula estratégias para uma vida diferente.

Seria a solidão e o exílio o preço a se pagar pela liberdade?

Ela quer sair para viver na floresta encantada. Entretanto, a única magia que lhe acomete é ter as tranças abruptamente cortadas e ser retirada da torre num rompante violento, típico da reação de um aparelho ideológico quando estamos a flertar com diferentes estilos de vida.

Deixada no deserto pelo feitiço da mãe severa e omnipresente, lá experimenta uma espécie de prisão sem grades, sugerindo-nos que estar livre ou presa são, antes, estados internos e que a emancipação completa não prescinde de uma grande capacidade de estar só.

Se as crenças que construímos servem para vivermos em conjunto, nos ajustando uns aos outros e todos ao Grande Outro[vi], é correto dizer que tais crenças, a um só tempo, libertam e castram nossa subjetividade, pois não é possível viver em sociedade sem negociar a liberdade individual em favor de uma liberdade ideal.

Parece que estamos aqui numa aula de Teoria Geral do Direito e do Estado ou de Filosofia Jurídica… E não nego que esse texto esteja atravessado por tais disciplinas, a propor que reflitamos em torno das bases sobre as quais se ergue a nossa liberdade mais radical.

Se já tem recursos, o que lhe falta é identidade, crenças e visão

Atrás das grades ou no exílio, revoluções foram deflagradas, amores foram fantasiados e, já que estamos numa coluna “Escrever para Inspirar à Ação”, livros, grandes livros, foram escritos. Veja alguns:

Antonio Gramsci escreveu os “Cadernos do Cárcere”, Oscar Wilde escreveu “De Profundis”, Miguel de Cervantes escreveu o célebre “Dom Quixote”, Graciliano Ramos escreveu “Memórias do Cárcere”, Fidel Castro escreveu “A História me Absolverá”, Luther King escreveu as “Cartas de uma prisão em Birmingham”, Marco Polo narrou suas viagens, Nelson Mandela seguiu líder contra o apartheid e escreveu sua autobiografia, o apóstolo Paulo escreveu várias epístolas enquanto capturado, Fiódor Dostoievski escreveu “Recordação da Casa dos Mortos” e até o libertino Marquês de Sade deu letras à sua libido em “Os 120 de Sodoma ou a Escola da Libertinagem”, escrito quando esteve preso na Bastilha.

O processo de rebeldia e ousadia pode ser doloroso, solitário e exigir de nós o corte das tranças e das escadas que nos mantêm ligadas ao mundo antigo e protegido.

Mas, assim como os livros escritos no cárcere romperam as trancas do totalitarismo, quero convidá-la a acreditar-se como pessoa radicalmente livre e a ter, na liberdade, o valor central de uma identidade capaz de lidar com certas prisões e agir de forma emancipatória.

Estou consigo e sei que consegue!

Renata Neto


[i] Perlaboração – conceito da psicanálise que implica em trazer para o plano da ação uma elaboração mental; levar a efeito um trabalho de transformação concreta decorrente da compreensão e superação das resistências identificadas em análise.

[ii] La Maison Dieu (A Casa de Deus), outro nome atribuído à carta 16, evoca um arquétipo que nos fala através dos significantes “mudança, de forma total e súbita. Quebra de velhas crenças. Abandono de relacionamentos passados. Corte de uma amizade. Mudança de opinião. Acontecimentos inesperados. Rutura. Adversidade. Calamidade. Miséria. Fraude. Falência. Fim. Destruição. Colapso. Queda. Perda. Ruína. Divórcio. Perda de estabilidade. Um acontecimento súbito, que destrói a confiança. Perda de dinheiro. Perda de segurança. Perda de um amor ou afeição. Contratempos. Mudança terrível. Penetrando em novas áreas.”  (KAPLAN, 1972)

[iii] Rapunzel é raptada, logo depois de nascer, por uma feiticeira que a (queria) cria presa numa torre no meio da floresta encantada. Com o passar dos anos, ela e o seu cabelo crescem e tornam-se o meio de entrada/saída da torre. Embora Rapunzel questionasse a mãe adotiva sobre sua vida isolada na torre, somente quando um príncipe-caçador se aproxima, atraído pela voz da donzela, é que ela começa a efetivamente desafiar a condição de prisioneira que lhe fora imposta. Essa verdadeira rebelião culmina no corte de suas tranças, num exílio no deserto e na cegueira de seu amado, que depois de vagar muito consegue reencontrá-la, outra vez guiado pelo som da sua voz. Ele recupera a visão pela lágrima que Rapunzel chora e, então, completam a unidade familiar que formaram antes do exílio, quando ela engravidara de gêmeos – nascidos, então, no exílio.

[iv] Das Unheimliche: conceito psicanalítico cunhado por Sigmund Freud para expressar a inquietante e perturbadora estranheza que alguém sente perante algo que lhe é conhecido, familiar.

[v] Patologia da Normalidade – Conceito de filosofia e medicina holística para se referir a normas, crenças e valores sociais que causam angústia e podem ser fatais, em outras palavras “comportamentos normais de uma sociedade que causam sofrimento e morte”.[1] Dessa forma os indivíduos que estão em perfeito acordo com a normalidade e fazem aquilo que é socialmente esperado acabam sofrendo, ficando doentes ou morrendo por conta das “normoses”. É comum justificar a manutenção de um comportamento não saudável por ser normal, algo que “todo mundo faz”, porém essa justificativa é falaciosa e acaba apenas perpetuando uma sociedade cheia de normoses.

[vi] Campo Social, na visão de Slavoj Zizek. Lugar simbólico de aproximação entre inconsciente e linguagem, para Lacan. Noção de alteridade fundamental, para Freud.

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